O CEO do UBS, Sergio Ermotti, alertou que os investidores globais estão operando com um grau de complacência incompatível com a escalada de riscos geopolíticos e econômicos. Em entrevista concedida nesta quinta-feira, o executivo afirmou que os mercados financeiros convivem há alguns anos com um nível de acomodação que não se sustenta e que, diante do ambiente atual, seria razoável esperar uma volatilidade consideravelmente maior do que a registrada. A mensagem interessa diretamente a gestores de fundos, tesourarias corporativas e investidores institucionais que recalibram prêmios de risco em carteiras globais de renda fixa e variável.

Na avaliação do banqueiro, a resiliência dos mercados tem uma explicação concreta: o volume expressivo de investimentos em inteligência artificial, data centers e outras tecnologias de ponta, que vem sustentando tanto a atividade econômica quanto os preços dos ativos. Esse fluxo de capital funcionou como um amortecedor de choques ao longo dos últimos anos, mas não eliminou desequilíbrios estruturais que permanecem abertos.

Problemas novos se acumulam sobre os antigos

Ermotti descreveu um ambiente em que novas questões surgem sem que as anteriores tenham sido resolvidas ou encerradas — diagnóstico que, na prática, reduz a margem de manobra de formuladores de política econômica e amplia o prêmio exigido para ativos de maior risco. Entre os vetores de pressão citados estão as consequências energéticas e logísticas das guerras no Irã e na Ucrânia, que mexem com custos de transporte e preços de insumos, e a rivalidade entre Estados Unidos e China, que segue tensionando cadeias de suprimentos globais.

A esse quadro se somam o encarecimento do crédito e uma inflação que resiste a ceder, dois fatores que comprimem o crescimento da economia mundial. O resultado é um cenário de múltiplas frentes de risco simultâneas, no qual choques regionais têm potencial para se propagar rapidamente por rotas comerciais, moedas e mercados de capitais.

Diversificação sem êxodo dos ativos americanos

Diante desse ambiente, o CEO do UBS avalia que é difícil e pouco recomendável carregar convicções direcionais fortes. A resposta dos clientes do banco, muitos deles detentores de grande patrimônio, tem sido ampliar a diversificação por setores e geografias, sem abandonar a exposição a inteligência artificial e tecnologia.

Ainda assim, Ermotti faz uma ressalva relevante para quem interpreta os movimentos recentes como sinal de retirada dos ativos americanos: a alocação agregada das carteiras não mudou de forma material no último ano. Houve, cerca de um ano atrás, algum direcionamento de recursos para mercados emergentes globais, mas o próprio banco classifica esse fluxo como alocação de caixa excedente em busca de retorno, e não como redução ativa de posições em ativos dos EUA ou em dólar. Segundo o executivo, esse movimento já perdeu força, e a moeda americana continua a operar como divisa de referência para o sistema financeiro.

Juros altos por mais tempo, com BCE, Fed e BoJ no radar

A política monetária é outro pilar do alerta. Com a inflação persistente e acima das metas dos bancos centrais ao longo do último ano, o executivo considera que novas rodadas de aperto não surpreendem. A expectativa do UBS é de que instituições como Banco Central Europeu, Federal Reserve e Banco do Japão elevem suas taxas nos próximos meses, com o BCE potencialmente iniciando o processo e o Fed seguindo o movimento. O banco espera um par de elevações nesse intervalo.

A consequência prática é que os investidores não devem contar com um retorno rápido dos custos de financiamento aos patamares que vigoravam antes das pressões inflacionárias mais recentes. Na leitura de Ermotti, a pressão inflacionária segue presente e sem dar sinais de arrefecimento, o que torna razoável trabalhar com juros mais altos em um horizonte previsível. Esse quadro tende a pressionar valuations de ativos de duration longa, elevar o custo de refinanciamento de dívidas corporativas e reforçar a atratividade relativa de instrumentos de renda fixa. O acompanhamento das decisões monetárias e dos indicadores que as orientam pode ser feito na seção de macroeconomia da SpaceMoney.

O que muda para quem investe

Segundo o CEO do UBS, juros mais elevados também estão empurrando os investidores para uma abordagem mais equilibrada de portfólio, com menor concentração em apostas direcionais e maior atenção à diversificação de fatores de risco. É uma resposta coerente com um ambiente em que a percepção de risco ainda não se traduziu em volatilidade proporcional.

O recado central, portanto, é de cautela: a calma dos mercados nos últimos anos não deve ser lida como ausência de risco. Com inflação resistente, custo de crédito elevado e tensões geopolíticas ativas, a complacência apontada por Ermotti pode se converter em reprecificação abrupta de ativos caso algum desses vetores se materialize de forma mais agressiva.