O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira, 9 de setembro, que vai elevar para até US$ 6 bilhões a recompra de títulos da dívida pública de longo prazo na operação prevista para a quinta-feira, triplicando o volume ordinário desse tipo de intervenção. O movimento, amplamente aguardado, tem como alvo os vértices de 10 e 20 anos da curva de Treasuries, um dos segmentos menos líquidos do mercado e aquele em que os juros atingiram patamares não vistos desde antes da crise financeira global de 2008.
Apesar da ampliação, a reação imediata do mercado foi negativa. Os yields voltaram a subir em uma sessão volátil, com os vencimentos mais longos avançando até 5 pontos-base antes de perder força: por volta das 11h30 (horário de Nova York), a Treasury de 10 anos era negociada a 4,841%, a de 20 anos alcançava 5,314% e o papel de 30 anos, com alta de 5 pontos-base, rompia o importante nível de 5,3%, atingindo 5,307%. Um ponto-base equivale a 0,01%.
O anúncio desta quarta-feira é um desdobramento do comunicado feito em 19 de agosto pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, quando o governo sinalizou que dobraria o volume das recompras de títulos já emitidos, que normalmente somam US$ 2 bilhões. Agora, a operação de quinta-feira será de até US$ 6 bilhões, com execução em uma janela de 20 minutos que terminará às 14h no horário de Nova York. O Tesouro também informou que as futuras recompras terão piso de US$ 4 bilhões.
Dívida de US$ 40 trilhões e o nó da ponta longa
A decisão ocorre em um ambiente de pressões simultâneas sobre a economia americana. A dívida pública total dos Estados Unidos ultrapassou recentemente US$ 40 trilhões, as tarifas comerciais e a guerra envolvendo o Irã reacenderam os temores inflacionários e o petróleo voltou a superar US$ 100 por barril nesta quarta-feira, elevando o custo da energia e o prêmio de risco embutido nos juros longos.
Os números fiscais ajudam a dimensionar o estresse. A emissão de Treasuries saltou 11,8% este ano em relação a 2025, enquanto a dívida em poder do público, de US$ 31,8 trilhões, registra expansão de 8,2%. Em um mercado que já é considerado o mais profundo e líquido do mundo, a ponta de 10 e 20 anos concentra menos atividade — e é exatamente aí que o Tesouro passou a intervir para evitar que a falta de liquidez amplifique o movimento de alta dos yields.
Reação dos analistas entre o cálculo e a desconfiança
Para a Wrightson ICAP, o aumento para US$ 6 bilhões equivale a triplicar as recompras e representa uma escalada relevante, mas ainda alinhada com a promessa inicial de pelo menos dobrar o programa. Os analistas da casa afirmaram que elevar o volume para a faixa de US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões — quadruplicar ou quintuplicar — não está descartado, mas representaria uma segunda mudança importante na estratégia de dívida em apenas duas semanas e uma admissão de que o anúncio anterior não foi totalmente pensado.
Mark Spindel, diretor de investimentos da Potomac River Capital, fez uma leitura cética do anúncio: na avaliação dele, a ação do Tesouro está distante do poder de fogo da bazuca usada por Hank Paulson, secretário do Tesouro durante a crise financeira de 2008, quando foi necessário um ato do Congresso para viabilizar a intervenção daquele período.
Já o economista Alex Pelle, do Mizuho, avaliou que as recompras vieram em volume menor do que parte do mercado esperava — ou temia — e que o risco de nova elevação existe, principalmente diante da reação adversa dos juros. Para ele, a pressão para que o Tesouro rompa com o procedimento operacional padrão deve arrefecer depois das eleições de meio de mandato.
Entre os críticos mais influentes do programa está Stanley Druckenmiller, da Duquesne Family Office, que foi mentor de Bessent. Em artigo no The Wall Street Journal, Druckenmiller argumentou que, quando os mercados passam a acreditar que o Tesouro está defendendo um preço, cada alta dos yields vira um teste da determinação oficial. Na visão dele, governos que tentam defender preços contra os fundamentos sempre perdem; a única variável é o quanto gastam antes de reconhecer a derrota.
Limites da atuação do Tesouro
O programa de recompra não é a única frente de atuação do Tesouro. O departamento também conduz um movimento paralelo para apoiar o iene japonês, em meio a um cenário de maior ativismo governamental nos mercados globais. Essa postura contrasta com a orientação defendida pelo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, que tem pregado menos envolvimento do banco central nos mercados financeiros.
O Federal Reserve anuncia na próxima semana sua decisão de política monetária, e os traders já precificam um aumento das taxas de juros. Para Anil Kashyap, economista da Universidade de Chicago, o que importa não é o discurso, mas a direção efetiva da política fiscal e monetária — o que só será revelado pelas próximas decisões concretas dessas instituições.
Por ora, a leitura predominante na curva é de que os juros americanos seguem pressionados, e a capacidade do Tesouro de controlar essa dinâmica apenas com recompras permanece em aberto.





