O fracasso da intervenção do Tesouro americano no mercado de títulos públicos para conter a alta dos juros de longo prazo acendeu um alerta na Verde Asset Management. Na avaliação da gestora liderada por Luis Stuhlberger, o episódio pode ter dado o primeiro sinal, mesmo que sutil, de que os Estados Unidos caminham para uma saída de repressão financeira como forma de lidar com o endividamento crescente.
A leitura foi apresentada em carta a clientes divulgada nesta sexta-feira, 4 de setembro. Segundo a casa, a tentativa de interferência, além de não ter funcionado como o esperado, deixou o dólar em situação mais frágil e estimulou a migração de recursos para outras divisas e para o ouro.
Yield de 30 anos e o efeito limitado da intervenção
O movimento do Tesouro ocorreu depois de o rendimento do título de 30 anos romper a barreira de 5,30% e alcançar o maior patamar desde 2007. No primeiro momento, o anúncio trouxe algum alívio aos mercados, mas o efeito se dissipou rapidamente — os rendimentos voltaram a subir no pregão seguinte e fecharam próximos das máximas observadas desde a crise financeira global.
A reação, para a Verde, era esperada. A gestora entende que operações de interferência em mercados profundos raramente surtem efeito duradouro, ainda mais quando o pano de fundo combina um déficit fiscal americano de grandes proporções, uma necessidade de financiamento crescente e o aumento das emissões de títulos por empresas privadas que buscam recursos para sustentar investimentos em inteligência artificial — o chamado capex de IA.
No limite, a leitura da casa é que qualquer solução pontual para conter a curva de juros tende a esbarrar na trajetória fiscal das economias desenvolvidas, que segue empurrando os prêmios para cima.
Repressão financeira: a saída silenciosa para a dívida
O conceito de repressão financeira se refere a políticas deliberadas que atuam sobre o custo da dívida pública, segurando as taxas de juros em níveis inferiores aos que seriam formados espontaneamente pelo mercado. Com isso, o Estado reduz sua despesa com financiamento e, ao mesmo tempo, vê o peso real do passivo diminuir com o passar dos anos.
Os instrumentos são variados: vão da compra de títulos feita diretamente pelo governo a normas que forçam bancos, fundos de pensão e seguradoras a manter esses ativos em seus balanços. Em qualquer um dos formatos, o custo acaba recaindo sobre o detentor da poupança, que financia o setor público recebendo retornos reais comprimidos em troca.
A Verde argumenta que o impasse fiscal de várias nações desenvolvidas dificilmente será resolvido pelo caminho convencional do ajuste. Restariam, então, duas alternativas no horizonte: tolerar inflação mais alta — alternativa que costuma ser politicamente incômoda — ou avançar na direção da repressão financeira. Para a gestora, a tentativa de intervenção nos EUA pode ser o primeiro sintoma, ainda tímido, de que a segunda rota está sendo considerada.
Ouro e prata: a aposta defensiva da Verde
A Verde afirma que ouro e prata precisam ocupar espaço relevante na construção de portfólio pensada para esse cenário. A gestora manteve as alocações nos dois metais durante agosto, e os retornos do período ajudam a explicar a decisão: os contratos de ouro para dezembro acumularam alta de 10,68% na Comex, no melhor mês desde janeiro, enquanto os contratos de prata para o mesmo vencimento registraram ganho de 15,78%.
Para a casa, a valorização dos metais reflete a busca por ativos que funcionem como escudo em um ambiente de juros estruturalmente altos, contas públicas pressionadas e maior intervencionismo estatal. Nessa leitura, os títulos de dívida longa passam a concentrar justamente os riscos que tornam ouro e prata mais necessários.
Brasil: eleições, Ibovespa e a aposta em renda variável
Na análise do cenário local, a Verde enxerga o processo eleitoral brasileiro em uma fase especialmente crítica. Pesquisas recentes indicam uma disputa mais apertada do que o consenso de mercado projetava no mês anterior, e esse quadro passou a ser refletido pelas ações a partir da segunda quinzena de agosto.
O Ibovespa, que havia acumulado perdas na primeira metade do mês, conseguiu reverter boa parte do movimento e encerrou agosto em queda de apenas 0,33%. Diante desse ambiente, a gestora comunicou aumento da exposição em renda variável brasileira e a manutenção de posições compradas em opções, com o objetivo de aproveitar o prêmio de risco ainda relevante em diversos setores.
Na renda fixa doméstica, a avaliação é distinta: a Verde segue sem posições direcionais e considera que o juro real praticado no Brasil, apesar de historicamente elevado, não oferece prêmio suficiente para atrair uma alocação mais decidida.
Resultados do fundo Verde em agosto e no ano
O fundo Verde entregou rentabilidade de 1,98% em agosto, contra 1,09% do CDI. No acumulado de 2026, o retorno atinge 10,33%, ante 9,33% do índice de referência.
Os ganhos do mês vieram sobretudo do ouro, da prata, das bolsas internacionais e das operações de trading. Em contrapartida, as perdas concentraram-se no juro real americano e no crédito, ainda que tenham sido descritas como marginais. No ano, o crédito figura como o principal detrator do desempenho do fundo.





