
O Brasil voltou com força ao centro das decisões de grandes investidores globais em 2026. Em um movimento que parecia improvável há poucos anos, o país passou a ser visto como principal destino do capital que sai dos Estados Unidos, em meio ao avanço do populismo econômico do governo Donald Trump e à crescente percepção de instabilidade institucional americana.
Relatórios recentes do Bradesco BBI, baseados em encontros com investidores nos EUA, mostram que a leitura mudou de forma estrutural: para muitos gestores, os Estados Unidos passaram a se comportar como um “mercado emergente populista”, enquanto o Brasil surge como alternativa líquida, barata e capaz de absorver grandes volumes de fluxo.
EUA perdem status de porto seguro institucional
A comparação pode soar exagerada à primeira vista, mas deixou de ser anedótica. Segundo o Bradesco BBI, a percepção de que os EUA caminham para um modelo menos previsível ganhou força entre gestores globais.
A principal preocupação envolve:
- Interferência política no Federal Reserve
- Incertezas fiscais crescentes
- Uso recorrente de tarifas e políticas comerciais agressivas
Esse conjunto enfraquece o dólar, pressiona os Treasuries e reduz a atratividade relativa dos ativos americanos. Como consequência, parte relevante do capital global busca novos destinos.
Brasil se destaca entre emergentes
É nesse contexto que o Brasil aparece como exceção positiva. Embora represente cerca de 4% do índice MSCI de mercados emergentes, o país concentra uma atenção muito maior do que seu peso sugeriria.
Os motivos são claros:
- Liquidez real e escalável, única na América Latina
- Valuation atrativo, após anos de desconto
- Estrutura de mercado capaz de absorver grandes volumes
“O Brasil é o mercado âncora da América Latina e o único com liquidez verdadeiramente escalável na região”, apontam analistas ouvidos pelo banco.
Fluxo estrangeiro impulsiona recordes do Ibovespa
O movimento já se reflete nos preços. Em 2026, o Ibovespa renovou recordes sucessivos, chegando a ultrapassar os 180 mil pontos pela primeira vez na história.
Na última semana analisada:
- Investidores estrangeiros foram compradores líquidos de R$ 7,7 bilhões
- O fluxo acumulado no mês chegou a R$ 12,4 bilhões, metade de todo o ano de 2025
- O índice acumulou alta semanal de 8,53%, a melhor desde abril de 2020
Esse fluxo tem sido o principal combustível do rali da Bolsa brasileira.
Queda da Selic entra como catalisador
Além do cenário externo, o Brasil oferece um segundo atrativo poderoso: juros reais elevados prestes a cair.
O consenso entre investidores globais aponta para um ciclo de cortes entre 200 e 300 pontos-base ao longo de 2026, levando a Selic de 15% para algo entre 12% e 13%.
Para o capital estrangeiro, esse movimento é especialmente relevante. Ele combina:
- Carrego ainda elevado no início do ciclo
- Valorização potencial dos ativos locais
- Redução gradual do risco macro
Eleição ainda não assusta — por enquanto
Curiosamente, o ciclo eleitoral brasileiro só agora começa a entrar no radar dos investidores globais. Até o momento, a avaliação predominante é de que o risco fiscal é “ruim, mas administrável”, não sendo visto como um fator capaz de desorganizar completamente o cenário.
Muitos gestores já estão overweight em Brasil, mas preferem aumentar posições apenas em momentos de volatilidade política, enxergando quedas como oportunidade.
Empresas que concentram o interesse
Nos encontros com investidores, a atenção se concentrou em empresas capazes de capturar tanto o cenário global quanto o doméstico. Entre os nomes mais citados estão:
- Petrobras (PETR3; PETR4)
- Vale (VALE3)
- Weg (WEGE3)
- BTG Pactual (BPAC11)
São companhias com liquidez, governança conhecida e capacidade de absorver grandes volumes de capital estrangeiro.
O olhar de longo prazo: lições de Bogle e do Super ETF
John Bogle defendia que fluxos de curto prazo são imprevisíveis, mas estruturas de custo, liquidez e diversificação são determinantes no longo prazo. Quando o capital global se move, ele busca mercados que funcionem — não narrativas políticas.
Na visão de Fábio Murad, CEO da SpaceMoney, esse movimento reforça um ponto central do método Super ETF:
“O investidor pessoa física não precisa adivinhar política global. Ele precisa estar exposto aos mercados certos, com baixo custo e diversificação. Quando o fluxo vem, ele chega para quem já está posicionado.”
Nesse contexto, ETFs de Brasil, combinados com renda global e proteção cambial, passam a cumprir papel estratégico dentro de carteiras diversificadas.
O avanço do populismo nos Estados Unidos alterou o eixo tradicional do capital global. Em 2026, o Brasil deixou de ser apenas uma aposta tática e voltou a ser visto como destino estrutural de fluxo, reunindo liquidez, juros, valuation e escala.
Para o investidor, a mensagem é clara: o mundo está mudando, e o capital se move antes do consenso.