O enfraquecimento prolongado do consumo doméstico na China deixou de ser um problema restrito ao país e passou a moldar o debate sobre o comércio global. Com exportações resilientes e um superávit que não se reduz mesmo diante de tarifas, a economia chinesa tornou-se foco de pressão diplomática no G20, em um movimento que reacende a discussão sobre quem se beneficia — e quem perde — com a atual arquitetura do comércio internacional.
Na reunião de ministros das Finanças do G20 realizada nos Estados Unidos, o comunicado final trouxe uma referência interpretada como uma crítica pouco velada ao defender a necessidade de “remover distorções que restringem o consumo doméstico”. A delegação chinesa contestou o trecho e outros três pontos do documento, tornando-se o único membro do grupo a divergir. A posição isolada não passou despercebida e foi alvo de críticas do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
Renda em desaceleração e o papel do mercado imobiliário
Os dados disponíveis ajudam a dimensionar por que a demanda interna perdeu força. Levantamentos da Wind com série iniciada em 2003 mostram que, até 2020, a renda disponível dos moradores das cidades chinesas crescia cerca de 10% ou mais ao ano — ritmo bem acima da média de 3% registrada nos Estados Unidos. Em 2025, no entanto, o avanço chinês desacelerou para 4,3%, apenas marginalmente superior aos 3,8% americanos.
Parte relevante dessa desaceleração está ligada ao encolhimento patrimonial das famílias. Relatório da Macquarie divulgado na sexta-feira aponta que os preços dos imóveis na China, desde o pico de 2021, recuaram para níveis que não eram vistos desde 2016, apagando 85% dos ganhos acumulados entre 2012 e 2021. O tombo é bem mais intenso que a queda de 47% observada no setor imobiliário dos Estados Unidos durante o colapso que marcou o mercado americano. Para Larry Hu, da Macquarie, o futuro do setor na China segue refém do desempenho exportador, e o mercado imobiliário só deverá encontrar um piso quando autoridades não puderem mais contar com as vendas externas para impulsionar o crescimento.
Exportações seguem fortes e tensionam o comércio global
Enquanto o consumo doméstico não reage, as exportações seguem como a principal âncora de atividade. As importações chinesas aceleraram em junho no ritmo mais forte em cinco anos, mas o aumento não foi suficiente para alterar de forma significativa o superávit comercial. A demanda global por componentes fabricados na China e usados em data centers tem sustentado os embarques, assim como a onda de calor na Europa, que elevou as exportações de aparelhos de ar-condicionado para o bloco em mais de 40%, até um recorde, conforme a imprensa estatal chinesa.
Esse desempenho ocorre apesar das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. As vendas externas chinesas cresceram em junho no ritmo mais forte desde 2021 e voltaram a superar as projeções de mercado em julho. O resultado reforça o diagnóstico de que o excedente comercial chinês é alimentado não apenas pela competitividade da indústria local, mas também pela fraqueza da demanda doméstica por bens e serviços.
Resposta oficial, mercado de capitais e o comportamento das famílias
Uma leitura de Zong Liang, ex-chefe de pesquisa do Bank of China, é que o país não planejou deliberadamente reforçar as exportações. Em declarações em mandarim, Zong afirmou que Pequim não previa o cenário atual no início do ano. Ele reconheceu que o governo chinês já apresentou políticas para estimular a demanda interna, porém avaliou que os resultados podem demorar todo um ciclo de cinco anos para aparecer, com desafio adicional de ampliar a renda das famílias.
Na comparação absoluta, a renda média disponível nos Estados Unidos chega a US$ 66.871, ante US$ 6.463 na China, diferença que supera dez vezes, de acordo com dados da Wind. Essa distância mostra o tamanho do espaço a percorrer para transformar o consumidor chinês em motor equivalente ao americano. Uma das apostas de Pequim envolve o mercado acionário doméstico, que ganhou novas empresas de tecnologia. Na visão de Zong, um mercado de capitais mais desenvolvido poderia oferecer aos consumidores retornos relativamente altos e gerar o chamado efeito riqueza. A ressalva é que investidores de varejo ainda se lembram do tombo de 2015, quando o CSI 300 perdeu mais de 40% em uma única temporada de verão.
Há ainda uma dimensão comportamental. Pesquisa do Banco Popular da China concluída em 2025 mostrou que a educação lidera as prioridades de gasto das famílias, seguida por saúde e viagens. Entretenimento e compras de bens aparecem em posições inferiores, o que ajuda a explicar a lentidão das vendas no varejo — especialmente de mercadorias. Em um cenário em que mais de 75% do comércio global é composto por bens, a posição da China como grande produtora e compradora hesitante tende a manter o país no centro de controvérsias comerciais, especialmente se o consumo interno continuar como ponto frágil da equação.





