Os mercados globais operam sem direção única nesta sexta-feira (11), em uma sessão marcada pela cautela diante do índice de preços ao consumidor (CPI) de agosto dos Estados Unidos, dado que orienta as apostas para os próximos passos do Federal Reserve (Fed). A inflação americana veio em linha com o consenso no índice cheio, mas o núcleo surpreendeu para cima na comparação mensal. No Brasil, o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, a primeira queda mensal em um ano, segundo o IBGE, em resultado puxado pelo recuo de 7,63% na tarifa de energia elétrica residencial.
Segundo o Monitor do Mercado, o dia também é marcado pela escalada do conflito no Oriente Médio, que volta a pressionar as perspectivas para o petróleo depois do avanço dos houthis, grupo apoiado pelo Irã, sobre uma importante área portuária do Iêmen.
Houthis avançam sobre Mokha e pressionam o petróleo
Na quinta-feira (10), relatos de que os houthis haviam avançado sobre Mokha, cidade portuária estratégica na costa oeste do Iêmen, deram impulso às cotações do petróleo. O grupo assumiu o controle da cidade no litoral do Mar Vermelho, ampliando a influência de Teerã em um ponto estratégico e elevando a pressão sobre a Arábia Saudita. A movimentação também aumenta os riscos para o fluxo de petróleo por dois estreitos fundamentais para o mercado global: Bab-el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, e Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico.
Após disparar cerca de 6% na véspera, o petróleo opera em queda nesta sexta-feira, depois de uma madrugada volátil, em movimento de realização de lucros. A correção, contudo, não retira os contratos dos níveis elevados alcançados com a escalada do conflito.
A Agência Internacional de Energia (AIE) revisou para baixo as projeções de demanda, o que adiciona pressão às cotações ao indicar que o encarecimento da commodity já começa a afetar o consumo. A entidade passou a estimar que a oferta e a demanda globais de petróleo recuarão mais do que o previsto neste ano em razão da guerra com o Irã. A recuperação completa do fornecimento de petróleo no Golfo deverá ficar para 2027, enquanto a oferta global deve sofrer redução de 5,7 milhões de barris por dia em 2026, ou cerca de 6%, ante queda de aproximadamente 4% projetada anteriormente. Os estoques globais de petróleo recuaram 3,1 milhões de barris por dia em agosto e, segundo a AIE, têm desempenhado papel fundamental para equilibrar o mercado diante das interrupções no fornecimento.
CPI dos EUA: índice cheio em linha e núcleo acima do consenso
O CPI americano avançou 0,4% na margem em agosto, em linha com o consenso, após alta de 0,1% na leitura anterior. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 3,4%, também conforme as expectativas e no mesmo ritmo registrado anteriormente.
No núcleo do CPI, que exclui os itens mais voláteis, a alta mensal foi de 0,3%, acima dos 0,2% registrados na leitura anterior e do consenso, de 0,2%. Em 12 meses, o núcleo avançou 2,4%, abaixo dos 2,5% observados anteriormente e em linha com a expectativa do mercado.
O mercado projetava alta de 0,4% no CPI cheio em agosto e avanço de 3,4% em 12 meses. Para o núcleo, a expectativa era de aumento de 0,2% no mês e de 2,4% em 12 meses. Segundo o BTG Pactual, a composição do núcleo do CPI será especialmente importante para estimar o comportamento do núcleo do PCE, indicador de inflação preferido pelo Fed e divulgado separadamente pelo governo americano.
IPCA registra deflação de 0,32% em agosto
No Brasil, o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, após alta de 0,07% em julho, segundo dados divulgados pelo IBGE. Foi a primeira queda mensal do índice desde agosto do ano passado, quando havia recuado 0,11%, e também a menor variação para um mês de agosto desde 2022. O resultado veio mais forte do que a deflação de 0,28% projetada pelo mercado, que já esperava alívio nos preços.
O movimento foi puxado principalmente pela tarifa de energia elétrica residencial, que caiu 7,63%, e pelo grupo Alimentação e bebidas, com recuo de 0,34%. A energia elétrica residencial, sozinha, contribuiu com -0,33 ponto percentual para o resultado do IPCA. Com isso, o grupo Habitação registrou queda de 1,87% em agosto, o menor resultado para um mês de agosto desde o Plano Real, de acordo com o IBGE.
Bolsas: futuros de Nova York sobem e Europa avança
Em Nova York, os índices futuros abriram em alta nesta sexta-feira, com os investidores de olho no CPI de agosto. No mercado de commodities, o petróleo recua mais de 2%, aliviando a pressão sobre os mercados acionários.
As bolsas europeias também operam em alta, mas caminham para o pior desempenho semanal desde abril, enquanto os investidores aguardam os dados de inflação dos Estados Unidos, que podem sinalizar os próximos passos do Fed. Na véspera, o BCE elevou os juros como esperado e alertou para uma inflação mais alta, pressionada pela disparada da energia em meio ao conflito no Oriente Médio.
Na Ásia, as praças encerraram a semana em queda, pressionadas pelo petróleo, que chegou a US$ 109,97 o barril, e pelo aumento das apostas em juros elevados pelo Fed. A piora das perspectivas para a inflação ofuscou o otimismo com semicondutores e gastos em IA: a SK Hynix caiu 3,4%, mas acumula alta de 12,7% na semana, enquanto a Samsung Electronics recuou 3,9%, mantendo ganho semanal de 5,3%.
No fechamento parcial, o S&P 500 Futuro subia 0,53%, o FTSE 100 avançava 0,57% e o CAC 40 ganhava 0,62%. Na Ásia, o Nikkei 225 cedeu 1,93%, o Shanghai SE Comp recuou 1,18% e o Hang Seng perdeu 0,6%. O ouro (jun) caía 0,12%, a US$ 4.401,82 por onça troy, o índice do dólar (DXY) subia 0,05%, aos 99,12 pontos, e o Bitcoin avançava 1,34%, a US$ 77.925,5.
Commodities: Brent e WTI recuam após salto de 6%
Após a forte alta da véspera, os contratos futuros do petróleo recuam em um movimento de realização de lucros. O Brent chegou a se aproximar de US$ 108 por barril antes de perder força, enquanto a revisão para baixo na projeção da demanda global pela AIE adiciona pressão às cotações, ao indicar que os preços elevados já começam a afetar o consumo. O Brent para novembro cai 3,60%, cotado a US$ 103,76, enquanto o WTI para outubro cede 3,22%, a US$ 99,17.
Nos Estados Unidos, o preço do diesel atingiu US$ 6 por galão nesta sexta-feira (11), pela primeira vez na história. As interrupções no fornecimento de combustíveis provocadas pelas guerras na Ucrânia e no Irã pressionam os custos de transporte e ampliam os impactos da alta da energia sobre a economia. O movimento acompanha a disparada do petróleo: os contratos futuros do WTI superaram US$ 100 por barril na quinta-feira, pela primeira vez desde maio, acumulando alta de cerca de 20% em setembro.
No mercado de minério de ferro, os contratos fecharam em queda de 1,78% em Dalian, na China, cotados a US$ 107,03 por tonelada.
Petrobras recua de reajuste e cenário político em foco
Ainda no Brasil, a Petrobras recuou do reajuste de R$ 0,19 por litro na gasolina vendida nas refinarias anunciado na noite de quarta-feira. A reversão ocorreu após a ampliação dos subsídios federais aos combustíveis pelo governo e deixou o litro do combustível R$ 0,19 mais barato nas refinarias, a menos de um mês do primeiro turno das eleições. Para o consumidor, a redução pode chegar a 2% nas bombas.
Na política, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência nas eleições de 2026, é formalmente investigado no inquérito que apura a produção do filme “Dark Horse”, sobre seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente preso por liderar a tentativa de golpe de Estado. A decisão que o tornou alvo da investigação foi tomada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 22 de julho, a pedido da Polícia Federal.
Destaques do mercado corporativo
A Petrobras firmou acordo de três anos com a PPSA para comercializar o gás natural da União no pré-sal, viabilizando o primeiro leilão, previsto para outubro. Já o Itaú emitiu R$ 5 bilhões em letras financeiras subordinadas, com vencimentos em 2036 e 2037, operação que deve elevar em 0,3 ponto percentual o capital nível 2 do banco.
Caixa e Banco do Brasil enfrentam paralisações de bancários. Na Caixa, a greve é nacional e por tempo indeterminado, enquanto no BB a adesão é parcial.
Reino Unido surpreende e sanções dos EUA ficam para segunda
No Reino Unido, a atividade econômica ganhou força em julho. O PIB cresceu 0,4%, após alta de 0,3% em junho e acima da expectativa de estabilidade do mercado, segundo o Escritório Nacional de Estatística (ONS). A produção industrial também surpreendeu positivamente, com avanço de 0,2% no mês, enquanto o déficit comercial caiu para 3,45 bilhões de libras, menor saldo negativo desde janeiro.
No cenário geopolítico, o governo de Donald Trump deve anunciar na segunda-feira sanções contra um grande banco, ainda não identificado. A informação foi divulgada pelo secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que afirmou que a medida faz parte da estratégia de ampliar a pressão econômica sobre Teerã para encerrar o conflito entre Estados Unidos e Irã, que já dura mais de seis meses. Bessent não revelou o nome da instituição nem o país onde ela está localizada. Segundo ele, o anúncio, inicialmente previsto para esta sexta-feira, foi adiado em razão das cerimônias do 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001.





