O IPCA de agosto entra no radar do Banco Central em um momento decisivo para o ritmo da política monetária. Projeções de bancos e consultorias apontam para deflação próxima de 0,3% no mês, o que deve derrubar a inflação acumulada em 12 meses de 4,44% para cerca de 4,25%. Para o Copom, porém, o número cheio é menos importante do que a composição do índice, especialmente o comportamento dos serviços.
Estimativas da Análise Econômica indicam queda de 0,30% no IPCA de agosto, enquanto o Goldman Sachs trabalha com recuo de 0,28%. O alívio esperado, no entanto, tem caráter parcialmente temporário. O IPCA-15 de agosto já havia cedido 0,40%, influenciado pela redução de 6,25% na energia elétrica, favorecida pelo bônus de Itaipu. Alimentos, combustíveis e passagens aéreas também contribuíram para o resultado.
O risco é que parte desse efeito seja devolvida em setembro, quando as tarifas voltarem a condições mais normais. “Por isso, a composição será mais importante que o índice cheio. Para o Copom, um IPCA favorável precisará vir acompanhado de inflação de serviços mais benigna, com desaceleração do acumulado em 12 meses”, afirma Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Serviços seguem acima da meta
No IPCA-15, os serviços subiram apenas 0,07% no mês. O dado mais monitorado pelo Copom, porém, é o núcleo de serviços subjacentes, que avançou 0,50% e acumula alta de 5,03% em 12 meses. Embora haja melhora na margem, o grupo segue operando bem acima do centro da meta de inflação, fixado em 3%.
Na mesma semana, a Pesquisa Mensal de Serviços deve indicar se a demanda doméstica perde força. O volume de serviços ficou estável em junho, após queda de 0,2% em maio, e cresceu 2% na comparação anual. Quatro das cinco atividades pesquisadas recuaram na margem, com exceção de informação e comunicação, que subiu 1,8%.
O indicador mede volume, não preços, e não deve ser confundido com a inflação de serviços. Ainda assim, uma leitura fraca em julho reforçaria o diagnóstico de que os juros elevados finalmente atingem setores mais dependentes de crédito e renda.
Atividade fraca e crédito mais caro
Os sinais de desaceleração da economia já aparecem em outras frentes. O consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre, a indústria cresceu apenas 0,2% em julho e o PMI de manufatura recuou de 47,5 para 46,3 pontos em agosto, permanecendo em território contracionista. Crédito mais caro, inadimplência e comprometimento de renda reforçam a perda de impulso da demanda doméstica.
Para o especialista Marcio Sette Fortes, o Banco Central vive uma equação delicada entre desaceleração doméstica e pressões externas. “Os juros sobem de elevador e descem de escada”, resume. O gradualismo é a resposta natural do Copom em um cenário de baixa visibilidade, em que choques de oferta não respondem à política monetária.
Exterior limita espaço para acelerar cortes
A avaliação é que o Fed, o BCE e o BoJ inclinados a elevar juros, o petróleo elevado e os rendimentos globais pressionados criam um piso externo mais alto para a curva brasileira. A isso se somam tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã, que mantêm voláteis os preços de energia e alimentos, além de riscos climáticos que podem afetar safras e logística.
Esse conjunto eleva a probabilidade de cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões restantes de 2026, levando a Selic de 14% para 13,25% em dezembro. Esse cenário é mais flexível do que a mediana atual do Focus, de 13,75%, cuja redução ganha probabilidade, mas dependerá do conjunto de projeções coletadas pelo Banco Central.
O Copom pode reduzir a Selic diante da desaceleração econômica, mas dificilmente terá espaço para acelerar o ritmo enquanto os riscos globais permanecerem elevados e enquanto a inflação de serviços não mostrar convergência mais clara para a meta.





