O presidente Donald Trump intensificou o confronto comercial com o Canadá ao responsabilizar Ottawa pela crise de poluição atmosférica que atinge os Estados Unidos, decorrente de incêndios florestais de grandes proporções. Em publicação na rede Truth Social nesta sexta-feira, Trump afirmou que os custos bilionários impostos à economia americana pela fumaça tóxica “devem, por necessidade, ser adicionados às tarifas que o Canadá já está pagando”. A declaração eleva a aposta em uma guerra comercial que já afeta setores como o de energia e manufatura, com potenciais impactos sobre as cadeias de suprimentos integradas entre os dois países.
Trump classificou a situação como “totalmente inaceitável” e acusou o governo canadense de não gerenciar adequadamente suas florestas, permitindo que o fogo se alastrasse sem controle. “Os Estados Unidos estão sendo invadidos por ar sujo, poluído e não saudável”, escreveu o presidente, que prometeu ligar para o primeiro-ministro Mark Carney ainda nesta sexta para cobrar medidas concretas. A fumaça já encobriu cidades como Nova York, onde o céu ficou alaranjado e os níveis de qualidade do ar atingiram patamares perigosos, forçando cancelamentos de voos e eventos ao ar livre.
Impactos econômicos e tarifários
A ameaça de Trump de elevar tarifas sobre produtos canadenses ocorre em um momento de tensão comercial já elevada. Desde o início de seu mandato, o republicano impôs sobretaxas sobre aço, alumínio e madeira serrada, gerando retaliações de Ottawa. Agora, a Casa Branca busca vincular a questão ambiental ao comércio, argumentando que a poluição transfronteiriça representa um custo não internalizado. Analistas de comércio internacional apontam que a medida pode violar regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), que exige nexo causal claro entre o dano ambiental e a tarifa compensatória.
O mercado financeiro reagiu com cautela. O dólar canadense caiu 0,4% ante o dólar americano, enquanto os futuros dos índices acionários norte-americanos operavam estáveis, refletindo a incerteza sobre a escalada retaliatória. Empresas com exposição bilateral, como a Bombardier e a Alcoa, podem sofrer com o aumento de custos. Especialistas em macroeconomia alertam que a imposição de tarifas ambientais pode abrir um precedente perigoso, transformando questões climáticas em armas comerciais.
Reação canadense e perspectivas
O primeiro-ministro Mark Carney, ex-presidente do Banco Central Europeu, ainda não se pronunciou oficialmente, mas fontes do governo canadense indicam que Ottawa estuda medidas recíprocas. Carney, que assumiu o cargo em 2025, tem adotado uma postura pragmática nas relações bilaterais, mas a pressão interna por uma resposta firme cresce. O Canadá é o maior fornecedor de petróleo bruto para os EUA, e uma escalada tarifária pode elevar os preços da gasolina no mercado americano, gerando pressão inflacionária adicional.
Enquanto isso, os incêndios florestais continuam a devastar vastas áreas no oeste do Canadá, com mais de 1.200 focos ativos, segundo a agência ambiental canadense. A fumaça já atingiu a costa leste dos EUA, afetando a saúde de milhões de pessoas. A crise climática, agravada por uma seca histórica, expõe a vulnerabilidade das infraestruturas de combate a incêndios em ambos os países. Para o mercado, a intersecção entre política ambiental e comércio internacional promete ser um dos temas mais voláteis dos próximos meses, com desdobramentos que podem reconfigurar alianças econômicas na América do Norte.





