O setor de supermercados nos Estados Unidos enfrenta um momento de inflexão preocupante para as grandes companhias de alimentos e varejo. Dados inéditos da Bain & Company, obtidos com exclusividade pela CNBC, revelam que as vendas unitárias em supermercados caíram 1,8% em junho na comparação anual, uma reversão abrupta em relação ao crescimento de 0,1% registrado em junho de 2025. O movimento sinaliza que o consumidor americano está comprando menos itens, mesmo com a inflação de alimentos ainda rodando entre 2% e 3% ao ano, o que já não é suficiente para sustentar o crescimento nominal do setor.

O encolhimento no volume de vendas reflete um comportamento defensivo do consumidor, que agora enfrenta preços cerca de 33% mais altos do que em 2019. De acordo com Kurt Grichel, head da prática de varejo das Américas da Bain, a mudança no padrão de consumo é significativa: “Aquela grande compra de supermercado que custava US$ 300 em 2019 agora custa US$ 400”. O executivo destaca que mesmo consumidores de alta renda estão sentindo o impacto absoluto no bolso e começando a pesquisar mais antes de comprar.

Pressão sobre fabricantes e varejistas

Com a redução no volume de vendas, a pressão recai diretamente sobre as margens das empresas do setor. Fabricantes como PepsiCo e varejistas como Walmart e Kroger já estão intensificando estratégias promocionais, cortes de preços e ofertas de valor para atrair o consumidor mais sensível a preço. O movimento marca uma transição do foco em crescimento de receita nominal para a retomada do crescimento em volume, um desafio operacional e financeiro considerável.

O cenário é particularmente delicado para as marcas próprias e para os segmentos de maior valor agregado, que tendem a sofrer mais em momentos de aperto orçamentário das famílias. A mudança de comportamento do consumidor, que troca marcas tradicionais por opções mais baratas e busca ativamente por descontos, está reconfigurando a dinâmica competitiva do setor.

Implicações macroeconômicas e de mercado

A desaceleração nos gastos com supermercados nos EUA tem implicações que vão além do varejo alimentar. O consumo das famílias é um dos principais motores da economia americana, e a retração nas compras de itens essenciais pode sinalizar um arrefecimento mais amplo da demanda. Para investidores, o movimento acende um alerta sobre a capacidade das empresas de repassar custos e manter margens em um ambiente de volumes declinantes.

Analistas de mercado acompanham de perto os próximos balanços das grandes redes e fabricantes para avaliar o impacto real da queda de unidades vendidas sobre a rentabilidade. A expectativa é que as empresas que conseguirem equilibrar promoções com eficiência operacional saiam na frente, enquanto aquelas com maior exposição a marcas premium podem enfrentar desafios adicionais. O setor de supermercados, historicamente resiliente, agora testa a resiliência do consumidor americano em um cenário de preços elevados e confiança em baixa.