Apesar da rejeição pública do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, à retirada das tropas enquanto o Hamas não for efetivamente desarmado, a estrutura negociada com mediação americana para o enclave palestino permanece de pé. Uma autoridade do Conselho da Paz afirmou nesta segunda-feira que o plano concebido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segue em pleno vigor, com as conversas com Israel em andamento e a implementação ocorrendo por etapas.

Em declarações televisionadas no domingo, Netanyahu reafirmou ao seu governo de direita a recusa em aceitar qualquer acordo que não preveja o desarmamento completo do grupo militante. A postura endurecida ocorre em um momento em que as Forças de Defesa de Israel suspenderam efetivamente os ataques no território palestino, em meio à pressão exercida pela Casa Branca.

O impasse entre Netanyahu e o desarmamento do Hamas

A posição pública do premiê israelense expõe a principal linha de tensão do processo negociado. Netanyahu condiciona qualquer movimentação militar à eliminação da capacidade armamentista do Hamas, enquanto os mediadores internacionais sustentam que o cronograma precisa ser gradual e verificável para evitar um colapso do cessar-fogo.

Autoridades ligadas ao Conselho da Paz indicam que a rejeição verbal de Netanyahu não invalida o avanço das tratativas. A leitura predominante é a de que o plano foi desenhado justamente para absorver esse tipo de ruído político, já que cada fase só é executada mediante o cumprimento de compromissos previamente estabelecidos.

O desenho da proposta americana

O anúncio de Trump no mês passado estabeleceu uma arquitetura de segurança para Gaza composta por três eixos: a retirada progressiva das forças israelenses, o desarmamento gradual do Hamas e a atuação de uma Força Internacional de Estabilização ao lado de uma nova força policial palestina. O modelo foi apresentado como um avanço concreto após Israel e o grupo militante terem concordado com a estrutura geral.

Na prática, a proposta transfere parte da responsabilidade de segurança para atores internacionais, reduzindo a necessidade de uma presença militar israelense prolongada. A nova força policial palestina seria a ponta local do sistema, enquanto a força internacional atuaria como garantidora da ordem durante a transição.

Verificação no terreno e cronograma

O ponto central do mecanismo é a verificação in loco. Segundo a autoridade do Conselho da Paz, o roteiro está formalmente estabelecido entre o Conselho e o Hamas, com Israel acompanhando de perto o processo. Não está sendo exigido de Israel que tome medidas irreversíveis ou que confie cegamente no grupo palestino antes que passos concretos sejam confirmados no terreno.

Essa engenharia processual é, na avaliação dos envolvidos, a principal salvaguarda contra o descarrilamento das negociações. Cada etapa subsequente depende da comprovação do cumprimento das exigências anteriores, o que cria um ciclo de confiança gradual entre as partes.

O que pode acontecer agora

O cenário imediato segue marcado por questionamentos sobre o cronograma e por desconfiança recíproca. A suspensão dos ataques israelenses, ainda que sob pressão dos EUA, é considerada um sinal de que a via diplomática permanece aberta, mas a reafirmação pública da linha dura por Netanyahu mantém o processo em um delicado equilíbrio.

As próximas semanas devem ser decisivas para testar a capacidade do plano de transformar os compromissos declarados em ações concretas no território de Gaza, com todos os atores monitorando, etapa por etapa, o cumprimento das obrigações assumidas.