Uma ofensiva ucraniana com robôs terrestres e drones de bombardeio na região oriental do Donbas reverteu mais de um ano de avanços territoriais da Rússia, segundo reportagem da CNBC. A operação, batizada de Vivaldi, começou em maio e pegou as forças russas de surpresa na área de Lyman, no norte da província de Donetsk, de acordo com especialistas em segurança ouvidos pela emissora.

A terceira fase da ofensiva libertou 51 quilômetros quadrados adicionais e elevou para 176 quilômetros quadrados o total de território retomado, segundo o brigadeiro-general ucraniano Andrii Biletskyi, em 28 de setembro. Ele afirmou que os combates mais recentes causaram mais de 2.000 baixas russas e resultaram na captura de mais de 250 soldados russos.

De acordo com Patrick Bolder, especialista em defesa e consultor estratégico do Centro de Estudos Estratégicos de Haia (HCSS), as forças ucranianas obtiveram controle do ar na área de Lyman, negando à Rússia o uso de seus drones, e depois empregaram aparelhos próprios para posicionar veículos terrestres não tripulados atrás das linhas inimigas, sem expor seus militares. Para o Kremlin, conquistar o Donbas está “muito distante no momento”, disse ele à CNBC, porque os ucranianos agora ocupam posições mais defensáveis. A embaixada da Rússia em Londres não respondeu a pedido de comentário da CNBC.

Os especialistas ouvidos pela CNBC ressaltam que a ofensiva não deve ser vista como um avanço decisivo, mas envia uma mensagem sobre a capacidade do Exército ucraniano de inovar no campo de batalha, segundo David Kirichenko, do think tank britânico Henry Jackson Society.

O presidente Volodymyr Zelenskyy elogiou o desempenho do Terceiro Corpo de Exército ao se encontrar com soldados que participam da contraofensiva, em publicação de 30 de setembro. Ele afirmou que a substituição de militares por sistemas robóticos terrestres é uma área promissora e que o país vai ampliar esse uso.

Mudança de paradigma

Para Serhii Kuzan, presidente do Centro Ucraniano de Segurança e Cooperação, sediado em Kiev, o uso desses sistemas robóticos reduziu os riscos ao pessoal e mudou a lógica do combate, permitindo cumprir tarefas que antes exigiam dezenas ou centenas de soldados. Ele disse à CNBC que a experiência de Vivaldi mostra que a substituição sistemática de pessoas por robôs está alterando o paradigma da guerra moderna, com perdas mínimas de efetivo.

Kuzan afirmou ainda que a contraofensiva na área de Lyman busca tomar a iniciativa no campo de batalha e forçar o Exército russo a abandonar os objetivos definidos por sua liderança política. Autoridades ucranianas relataram que o comando político russo havia estabelecido a meta de capturar a região de Donetsk até o fim do ano, mas as forças russas agora buscariam uma prorrogação até março do próximo ano. Segundo Kuzan, a Rússia concentra as maiores perdas nas direções de Kostiantynivka, Sloviansk e Kramatorsk, que respondem por 70% a 80% das baixas.

Nos últimos dias, a Rússia intensificou ataques à capital ucraniana e a grandes cidades, mirando data centers, comunicações e infraestrutura de energia. Autoridades ucranianas dizem que há necessidade urgente de responder rapidamente a ameaças de mísseis e drones. A Ucrânia, por sua vez, tem tentado elevar o custo da guerra para a Rússia, atacando refinarias de petróleo e centros logísticos.