A investigação federal que desmantelou uma rede de contrabando de migrantes e mercadorias entre Cuba e o México trouxe à tona o nome de Raúl G. Rodríguez Castro, neto do ex-presidente cubano Raúl Castro, como uma figura central na proteção das operações criminosas em território cubano. Documentos judiciais e depoimentos colhidos ao longo de anos apontam que o coronel do Ministério do Interior teria recebido bens de luxo, embarcações e dinheiro em troca de garantir que a guarda costeira e a alfândega de Cuba não interferissem nos negócios do grupo conhecido como Máfia Cubana, sediado em Quintana Roo, no México. Apesar das evidências mencionadas em tribunais federais dos Estados Unidos, Rodríguez Castro nunca foi formalmente acusado e segue sem cargo público, embora atue como interlocutor do governo cubano em negociações com a administração Trump.

O caso ganhou contornos políticos delicados porque o mesmo homem retratado nos autos como colaborador de contrabandistas é descrito por diplomatas e assessores ocidentais como uma peça-chave no diálogo entre Havana e Washington. Uma década atrás, durante uma visita oficial de Raúl Castro a Paris, Rodríguez Castro chamou atenção ao se posicionar insistentemente ao lado do avô em fotos oficiais, chegando a ser repreendido por François Hollande e por membros da guarda de honra francesa. Hoje, aos 42 anos, ele é visto como um possível nome aceitável para suceder o regime cubano em eventual transição negociada, mesmo sem nunca ter ocupado função formal de governo.

O esquema de contrabando e as acusações em tribunal

As investigações conduzidas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos resultaram na condenação de pelo menos 21 pessoas envolvidas na operação que usava barcos roubados na Flórida para transportar cubanos que desejavam chegar ao território americano. Os migrantes eram levados ao México, mantidos em casas seguras e, segundo depoimentos, torturados quando não pagavam as taxas cobradas pelos criminosos. A organização também utilizava cartões de crédito roubados para comprar mercadorias no México, posteriormente enviadas a Cuba com a suposta conivência de autoridades locais.

Dois réus que se declararam culpados e colaboraram com os promotores, José Miguel González Vidal e Reynaldo Crespo Márquez, implicaram Rodríguez Castro como um dos funcionários estrangeiros que recebiam vantagens para facilitar a operação. González Vidal, condenado a 25 anos de prisão, afirmou que o coronel recebeu um barco de alta performance modelo Fountain 38, um relógio Rolex, uma motocicleta Suzuki e roupas da marca Louis Vuitton. Os produtos adquiridos ilegalmente, segundo o relato, acabavam vendidos em lojas do governo cubano. As informações foram corroboradas por mensagens de texto e de correio de voz extraídas pelo FBI dos celulares de integrantes da quadrilha.

A questão também foi discutida em audiência pública. Em setembro de 2023, durante um julgamento em Miami, a defesa de um dos réus perguntou a Crespo, então testemunha colaboradora, sobre uma reunião na qual González Vidal e Rodríguez Castro teriam tratado do envio de uma embarcação para Cuba. Crespo cumpre pena de 20 anos por sua participação no esquema. O advogado de González Vidal, Juan D. Berrios, preferiu não comentar o caso.

O papel político de Rodríguez Castro em Havana

Além das acusações criminais, o neto de Raúl Castro emerge como um operador político relevante em um momento de isolamento internacional do regime cubano. Assessores que acompanharam negociações migratórias entre Cuba e Estados Unidos descrevem Rodríguez Castro como alguém que participava de reuniões de alto nível e mantinha contato com integrantes graduados da administração Trump. O ex-assessor do senador Patrick Leahy, Tim Rieser, classificou a ascensão do coronel como um exemplo claro de como o governo cubano funciona na prática, comparando o modelo a um negócio de família em que a confiança pessoal supera estruturas formais de poder.

Funcionários cubanos, no entanto, demonstraram surpresa com a proeminência de Rodríguez Castro nas tratativas, enxergando-o inicialmente como um simples cuidador do avô. Um integrante do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba recorreu às redes sociais para denunciar o que chamou de assassinato de caráter promovido pela mídia americana, sugerindo que as reportagens teriam como objetivo fragilizar a imagem do governo cubano e insinuar divisões internas. O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos R. Fernández de Cossío, classificou as acusações como difamação e afirmou que Havana alertou repetidamente os Estados Unidos sobre o contrabando generalizado de cubanos pela América Central, sem obter resposta efetiva.

Ambíguo posicionamento do coronel

Rodríguez Castro, procurado por canais diplomáticos e por intermediários, não respondeu aos pedidos de entrevista. Em declaração ao USA Today, ele negou possuir riqueza própria e atribuiu a amigos e admiradores ricos o custeio de roupas de grife, veículos estrangeiros de luxo e viagens ao exterior. A justificativa, porém, contrasta com os registros obtidos pela investigação federal, que indicam um padrão de recebimento de presentes e embarcações de alto valor justamente no período em que a rede de contrabando operava com fluidez em águas cubanas.

O caso ainda não foi encerrado. O Departamento de Justiça não confirmou se Rodríguez Castro é alvo formal de investigação em andamento, e a ausência de acusação formal até o momento não elimina a possibilidade de novos desdobramentos. Para analistas que acompanham as relações entre Cuba e Estados Unidos, a exposição pública do nome do neto de Raúl Castro adiciona mais um elemento de incerteza a um cenário diplomático já marcado por tensões, sanções e negociações migratórias complexas. Enquanto isso, a família Castro segue no centro de um debate que mistura política, crime organizado e a disputa pelo futuro da ilha.