A Marinha do Brasil concluiu a desmobilização do hospital de campanha instalado em La Guaira, na Venezuela, encerrando uma operação de assistência às vítimas dos terremotos de 24 de junho. Os abalos sísmicos de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorridos com intervalo inferior a um minuto, devastaram áreas densamente povoadas, como Caracas e a própria La Guaira, elevando o número oficial de mortos para 5.278. A iniciativa brasileira integrou um esforço internacional que mobilizou Estados Unidos, China, México, Reino Unido e outras nações, cada qual contribuindo com equipes de resgate, suprimentos médicos e alimentos.
Ao longo da operação, a unidade móvel da Marinha realizou 2.695 atendimentos, dos quais 1.764 foram em clínica geral, abrangendo queixas como cefaleia, hipertensão, náuseas e desidratação. Na ortopedia, 356 pacientes receberam cuidados por traumas, lesões e dores articulares ou musculares. A pediatria respondeu por 303 consultas, enquanto o suporte psicossocial atendeu 257 pessoas com diagnósticos de estresse agudo e outros transtornos de saúde mental. Foram ainda realizadas 15 cirurgias. O contingente de 102 militares e os equipamentos empregados retornaram ao Brasil em voos da Força Aérea Brasileira, com a última leva chegando ao Rio de Janeiro na manhã de 21 de julho.
Impacto geopolítico e cooperação regional
A desmobilização ocorre em um contexto de crescente pressão sobre a infraestrutura venezuelana, já fragilizada por anos de crise econômica e sanções internacionais. A resposta coordenada de múltiplos países evidencia a importância da ajuda humanitária como instrumento de diplomacia e soft power. Para o Brasil, a operação reforça sua capacidade de projeção logística na América do Sul, ao mesmo tempo que sinaliza disposição para cooperar com o governo de Nicolás Maduro, apesar das tensões políticas bilaterais.
Os dados de atendimento revelam a gravidade das consequências dos terremotos: a alta demanda por cuidados psicossociais indica o trauma coletivo gerado pelos desabamentos e pelo luto. A presença de 303 crianças atendidas na pediatria sugere que a população infantil foi particularmente vulnerável, possivelmente devido a deslocamentos e condições sanitárias precárias nos abrigos temporários.
Logística e retorno dos militares
A operação envolveu a montagem de um hospital de campanha completo, com capacidade para cirurgias e suporte multidisciplinar. O retorno dos militares e equipamentos foi planejado em etapas, priorizando a continuidade dos atendimentos até o último momento. A FAB desempenhou papel crucial no transporte aéreo, garantindo a mobilidade necessária para uma missão em território estrangeiro.
O encerramento da missão não significa o fim da assistência brasileira à Venezuela. O governo já havia enviado 690 mil doses de vacinas anteriormente, e novas remessas de ajuda podem ser discutidas conforme a evolução da situação humanitária. A tragédia expôs a fragilidade sísmica da região do Caribe e a necessidade de protocolos de resposta rápida entre os países sul-americanos.





