O Irã anunciou neste domingo uma reformulação no alto escalão do poder, com duas nomeações assinadas diretamente pelo líder supremo do país. O aiatolá Mojtaba Khamenei designou o major-general Mohsen Rezaei para atuar como líder representativo no Conselho Supremo de Segurança Nacional e Mohammad Bagher Zolghadr para o posto de conselheiro político, conforme comunicado publicado no X. A mudança ocorre em meio à escalada do conflito com os Estados Unidos e Israel e a um acirrado debate interno sobre os rumos econômicos do regime.
Segundo a rede Al Jazeera, Rezaei passa a ocupar o mais alto posto de segurança da estrutura iraniana, anteriormente exercido por Ali Larijani, morto em março em um ataque atribuído a Washington e Tel Aviv, e depois por Zolghadr, que agora migra para o assessoramento direto do líder supremo. Em mensagem oficial, o aiatolá desejou sucesso aos dois dirigentes ao assumirem os novos papéis em nome dos ideais da Revolução Islâmica.
Reorganização na cúpula de segurança do Irã
A troca de funções reposiciona quadros de confiança do núcleo decisório iraniano em um momento crítico do conflito contra Estados Unidos e Israel. A nomeação de Rezaei é interpretada como um movimento de reforço institucional no Conselho Supremo de Segurança Nacional, instância que concentra as principais deliberações estratégicas sobre a guerra, o programa nuclear e os canais de negociação com potências estrangeiras.
Zolghadr, por sua vez, deixa a representação no conselho, mas permanece dentro do círculo mais próximo do poder como conselheiro político, o que indica continuidade na formulação das posições do regime diante da pressão externa. A mudança ocorre um dia depois de o próprio Zolghadr anunciar publicamente as condições estabelecidas por Teerã para a reabertura do Estreito de Ormuz.
Divisão interna exposta por autoridades americanas
Ainda neste domingo, relatos de autoridades americanas ao site Axios reforçaram a percepção de que há um racha no governo iraniano. De um lado, o grupo alinhado ao presidente Masoud Pezeshkian, que segundo as fontes demonstra forte preocupação com um possível colapso econômico e defende a necessidade de chegar a um acordo com Washington. De outro, a ala liderada por Ahmad Vahidi, comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que rejeita qualquer tipo de concessão nas negociações.
O cenário deixa a cúpula iraniana dividida entre a urgência de aliviar a crise interna e a resistência histórica dos setores mais radicais do regime. As mesmas fontes indicam que Donald Trump chegou a demonstrar inclinação para retomar os combates em força total contra o Irã, mas optou por manter a pressão econômica enquanto sustenta o que classificaram como semi-negociações com o governo de Teerã.
Pauta econômica e militar domina reunião com Pezeshkian
Em paralelo à reformulação administrativa, Khamenei confirmou ter se reunido com Pezeshkian para tratar de temas econômicos e militares. De acordo com nota oficial, o encontro abordou o futuro da guerra em curso contra Estados Unidos e Israel, os desdobramentos militares mais recentes, as medidas de segurança adotadas e o gerenciamento dos gastos públicos nas esferas de moeda doméstica, moeda estrangeira e energia.
Também estiveram na pauta as relações econômicas internacionais com países parceiros, sinalizando que o regime busca diversificar seus canais comerciais e financeiros em meio às sanções e ao bloqueio impostos pelos americanos. A combinação entre agenda militar e econômica no mesmo encontro reforça o diagnóstico de que a sobrevivência do governo depende tanto da resistência no campo de batalha quanto da sustentabilidade fiscal doméstica.
Ormuz e as condições impostas a Washington
A movimentação política acontece na esteira da proposta apresentada por Zolghadr para a reabertura do Estreito de Ormuz, dentro do escopo de um acordo de gerenciamento firmado com Omã. Segundo os termos divulgados, os americanos teriam que encerrar permanentemente a guerra contra Teerã e seus aliados no Líbano, em Gaza, no Iêmen e no Iraque, além de retirar forças militares das proximidades do território iraniano e suspender o bloqueio naval.
As condições impostas por Teerã indicam que qualquer avanço diplomático está condicionado a um amplo rearranjo da presença militar dos EUA na região, um ponto de fricção que permanece no centro das conversas. A reabertura do estreito segue, assim, dependente de um aceno concreto de Washington, enquanto o regime iraniano aproveita a reorganização da sua cúpula para endurecer o discurso e, ao mesmo tempo, manter os canais de diálogo abertos no cenário externo.





