Os Estados Unidos proibiram nesta terça-feira (8) a importação de bebidas alcoólicas, motocicletas e laticínios do Canadá, em mais um movimento abrupto na guerra comercial bilateral. As restrições foram publicadas no site da Casa Branca e entram em vigor em 29 de setembro.

A nova ofensiva ocorre um dia depois de o Canadá iniciar a cobrança de tarifas retaliatórias sobre produtos norte-americanos. Ottawa respondeu às tarifas de 50% impostas pelos EUA a cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses no mês passado, depois do fracasso de repetidas rodadas de negociação entre os dois países.

O impasse aprofundou a divisão entre aliados de longa data, que se culparam mutuamente pelo fracasso das negociações, e levou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a defender um distanciamento ainda maior do maior parceiro comercial do Canadá. Em vídeo publicado no YouTube, Carney afirmou: “Temos tudo o que precisamos para mudar de rumo e prosperar”. “Essa reorientação terá um custo. Sempre há um custo para agir. Mas não chega nem perto do custo de ficar parado”, acrescentou. Ele também levantou dúvidas sobre a viabilidade do Acordo EUA-México-Canadá.

Bebidas, laticínios e motocicletas na lista de bloqueio

As proibições anunciadas por Washington abrangem a maior parte das bebidas alcoólicas canadenses, incluindo cerveja, vinhos, uísque, bourbon, rum, vodca, vermute, tequila, mezcal e conhaque. Também entram na lista proteína de soro de leite, melaço invertido, melaço de cana e cerveja sem álcool.

Vários tipos de queijo foram adicionados à lista de produtos sujeitos a tarifa de 50%, mas não foram totalmente proibidos. Alguns produtos de papel, alumínio, madeira, móveis, iluminação e outros itens também passaram a integrar a mesma lista.

Retaliação canadense quer pressionar Washington

Autoridades do governo canadense afirmaram que as medidas adotadas por Ottawa foram desenhadas para pressionar os EUA nos planos econômico e político. As tarifas de retaliação incidem sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos norte-americanos, com alíquotas de 15% a 50% em itens como aço, móveis, roupas e eletrônicos. A lista inclui setores relevantes em estados competitivos como Michigan e Ohio antes das eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para novembro.

Embora o volume atingido pelas tarifas represente uma parcela pequena das exportações diante do comércio total entre os dois países, há o temor de que o impasse possa desestabilizar o Acordo EUA-México-Canadá, sucessor do NAFTA. O pacto sustentou por décadas o comércio na América do Norte.

Michael Harvey, diretor executivo da Aliança Canadense de Comércio Agroalimentar e integrante do comitê consultivo de Carney sobre relações econômicas bilaterais com os EUA, afirmou que a preocupação é uma “espiral de escalada”. “Mas, ao mesmo tempo, entendemos perfeitamente que o primeiro-ministro precisa encontrar áreas de influência”, disse.

Negociação segue aberta em meio a ofensiva de Trump

Uma autoridade norte-americana afirmou que a ameaça anterior do presidente Donald Trump de elevar as tarifas sobre automóveis canadenses de 25% para 50% a partir de 1º de janeiro continua em vigor. A mesma autoridade disse que o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, conversou com Dominic LeBlanc, ministro canadense responsável pelo comércio bilateral, nos últimos dois dias. Os dois devem voltar a conversar nos próximos dias para verificar se existe um caminho alternativo.

Em postagem nas redes sociais na noite de terça-feira, LeBlanc criticou as últimas medidas americanas e afirmou que segue em contato com Greer para encontrar uma saída. “Assim como tem sido nos últimos 18 meses, nossa principal prioridade continua sendo proteger e apoiar os trabalhadores, agricultores, famílias e empresas canadenses contra essas ações injustificadas”, escreveu.

A ofensiva de Trump contra o Canadá, no entanto, continua intensa. Na segunda-feira, ele afirmou que a fabricante de jatos particulares Bombardier não poderá mais vender aeronaves nos EUA a menos que passe a fabricar o produto no país. Trump também compartilhou um mapa da América do Norte com a bandeira americana, incluindo Canadá e México, e uma imagem gerada por inteligência artificial que chama Carney de “Governador”, em referência à provocação repetida de que o Canadá deveria se tornar o 51º estado americano.

Na terça-feira, horas antes das novas proibições de importação, Trump determinou que a Administração de Serviços Gerais (GSA, na sigla em inglês), órgão do governo dos EUA responsável por prestar serviços ao governo federal, coordene com o representante comercial dos EUA a remoção de produtos canadenses das listas de contratação múltipla da GSA, a menos que o Canadá restabeleça “reciprocidade plena e justa” para agricultores e empresas americanas.