O mercado global de residência por investimento está sendo redesenhado em ritmo acelerado. A compra de imóveis, que por décadas funcionou como principal atalho para a obtenção de vistos de residência em diversos países, perdeu espaço para um novo critério: a capacidade de o investidor gerar impacto econômico direto, com criação de empregos, fomento à inovação e aportes em setores produtivos. A conclusão está no Índice Global de Programas de Residência 2026, divulgado nesta semana pela consultoria Global Citizen Solutions, que avaliou 48 programas de residência em 46 jurisdições.

O estudo, que pondera critérios como qualidade de vida, mobilidade internacional, facilidade processual, atratividade do investimento e credibilidade, posiciona a Suíça no topo do ranking, com nota 91,9, seguida pelos Emirados Árabes Unidos, com 91,5, e pelo Golden Visa de Portugal, que mantém o país entre as principais portas de entrada para investidores estrangeiros que desejam viver na Europa.

O fim do capital imobiliário nos programas de residência

O levantamento evidencia uma transformação profunda nos critérios adotados pelos países para atrair capital estrangeiro. Durante anos, programas de residência foram construídos em torno da aquisição de imóveis, um modelo que permitia ao investidor obter o visto com um aporte de natureza essencialmente passiva. Esse formato, porém, vem sendo sistematicamente abandonado.

Portugal retirou o investimento imobiliário do Golden Visa em 2023; a Espanha extinguiu definitivamente seu programa em 2025; Chipre, Bulgária e Montenegro encerraram mecanismos semelhantes; e a Grécia elevou significativamente o valor mínimo exigido para aportes no setor imobiliário. No lugar do capital passivo, os governos passaram a privilegiar investimentos em fundos regulados, empresas inovadoras, projetos de venture capital e iniciativas com potencial comprovado de geração de emprego.

Na prática, o que separa os programas mais competitivos deixou de ser o menor custo de entrada. A nova disputa global concentra-se na capacidade de atrair capital qualificado, capaz de demonstrar contribuição econômica real e de atender a padrões cada vez mais rigorosos de diligência e transparência.

Ranking global: Suíça, Emirados e Portugal lideram a nova ordem

O topo da tabela reflete exatamente esse movimento. A Suíça lidera com o modelo de residência fiscal de montante fixo, conhecido como lump-sum tax, que atingiu 91,9 pontos. Os Emirados Árabes Unidos aparecem em segundo lugar, com 91,5 pontos e a maior pontuação de investimento de todo o índice, impressionantes 99,3.

O Golden Visa de Portugal completa o pódio, com 91,3 pontos, oferecendo um caminho para a cidadania em sete ou dez anos, dependendo da nacionalidade do requerente. A elite do ranking divide-se quase ao meio entre modelos passivos e ativos: seis golden visas e quatro vistos de investidor ativo ou empreendedor, com Itália, Grécia, Nova Zelândia, o visto D2 de Portugal, Singapura e Luxemburgo completando a lista dos mais bem avaliados.

Esse resultado mostra que a competição entre países deixou de ser definida pelo valor mínimo do investimento. No novo ambiente, os programas mais bem avaliados combinam segurança jurídica, qualidade de vida e mecanismos que conectam diretamente o capital estrangeiro ao desenvolvimento econômico local.

Brasileiros no exterior: recorde de 5,29 milhões e Portugal em segundo lugar

O reposicionamento dos programas ocorre em um momento de expansão da diáspora brasileira. Segundo o Relatório Consular Anual do Ministério das Relações Exteriores, 5,29 milhões de brasileiros vivem atualmente fora do país, um recorde histórico. Os Estados Unidos concentram a maior comunidade, com cerca de 2,07 milhões de residentes, seguidos por Portugal, que abriga mais de 574 mil brasileiros e se consolida como o principal destino europeu da emigração nacional.

A presença brasileira em Portugal ajuda a explicar a relevância do Golden Visa no ranking global. Mesmo com o fim do investimento imobiliário, o programa português continua atraindo famílias e empreendedores interessados em obter residência na Europa, agora por meio de aportes financeiros e empresariais de perfil mais sofisticado.

Perfil do investidor: do capital passivo ao empreendedorismo produtivo

Para a CEO e fundadora da Global Citizen Solutions, Patricia Casaburi, os programas mais bem avaliados em 2026 são exatamente aqueles capazes de demonstrar contribuição econômica real, em um ambiente de exigências crescentes de diligência e transparência. A avaliação da executiva indica que o mercado de migração por investimento amadureceu e que os países passaram a enxergar o visto de residência como instrumento de política econômica, e não apenas como fonte de receita.

Essa visão é compartilhada pela pesquisadora-chefe da Global Intelligence Unit da consultoria, Laura Madrid, que descreve o momento como uma transição estrutural. O capital passivo ajudou a construir a indústria da migração por investimento; agora, cresce a preferência por programas que conectem diretamente o aporte ao desenvolvimento econômico dos países.

Em Portugal, na prática, os recursos do Golden Visa passaram a ser direcionados para fundos de venture capital e private equity regulados, em substituição definitiva ao antigo modelo imobiliário. Para empreendedores, o visto D2 segue como alternativa para quem deseja desenvolver atividades econômicas no país, enquanto as famílias brasileiras precisam avaliar prazos, exigências de permanência, regras tributárias e possibilidades de cidadania antes de definir a estratégia de investimentos no exterior.

Américas: Canadá, Estados Unidos e as rotas acessíveis

Fora da Europa, o continente americano segue com papel relevante no cenário global de mobilidade. O Canadá, embora tenha descontinuado o Programa Federal de Investidor Imigrante entre 2012 e 2014, mantém as rotas provinciais e o Programa de Investidor de Quebec na décima posição do ranking geral, com 88,6 pontos e uma das maiores pontuações de qualidade de vida de todo o índice. O Itamaraty estima que 153 mil brasileiros residam atualmente no país.

Nos Estados Unidos, o Programa de Investidor Imigrante EB-5 alcança 83,9 pontos, e o visto de Investidor Tratado E-2 registra 82,6 pontos, ambos com desempenho sólido, mas atrás dos dez programas que compõem o topo do ranking global. Já Panamá, Costa Rica, Brasil, México, Paraguai e República Dominicana aparecem como opções de menor custo e processamento rápido, embora nenhuma atinja pontuação suficiente para alcançar o primeiro escalão do estudo.

Europa além de Portugal: a diáspora brasileira se espalha pelo continente

A preferência dos brasileiros pela Europa não se limita a Portugal. Dados da consultoria e do Itamaraty mostram que a Suíça acolhe cerca de 88 mil cidadãos brasileiros, distribuídos entre Zurique, com 49 mil, e Genebra, com 39 mil. Luxemburgo registra 10 mil residentes brasileiros, enquanto a Grécia soma 4 mil e a Itália concentra uma comunidade expressiva de 159,2 mil brasileiros.

Essa pulverização geográfica ocorre em um contexto de disputa por capital qualificado. Os países europeus passaram a desenhar programas capazes de atrair não apenas recursos financeiros, mas também talento empreendedor, inovação e capacidade de geração de empregos, o que eleva o nível de exigência para os candidatos e torna o planejamento patrimonial uma etapa decisiva do processo.

Oceania: a maior média regional do índice

O levantamento também destaca a Oceania como o bloco regional com a maior média de pontuação: 88,6 pontos. A Nova Zelândia ocupa a sexta posição do ranking geral, e a Austrália aparece em décimo terceiro lugar, ambas impulsionadas por modelos focados em talentos e aportes ativos.

Esse desempenho regional vem acompanhado de uma presença brasileira relevante. A Oceania como um todo abriga cerca de 84 mil brasileiros, enquanto os Emirados Árabes Unidos atraem 65 mil e Singapura reúne aproximadamente 2 mil cidadãos do país, todos altamente qualificados, segundo o estudo.

Metodologia e o novo padrão de exigência global

O Índice Global de Programas de Residência 2026 pontua os programas em uma escala de 0 a 100, com base em cinco pilares ponderados: qualidade de vida, com peso de 30%; procedimento, também com 30%; mobilidade, com 20%; investimento, com 10%; e conformidade e credibilidade, com 10%. A combinação desses fatores permite comparar realidades muito distintas, de regimes tributários especiais a vistos para empreendedores.

O estudo reforça que os termos dos programas mudam com frequência, e os candidatos devem confirmar os requisitos atuais com fontes oficiais antes de tomar qualquer decisão. A mensagem central, no entanto, é clara: a era em que bastava comprar um imóvel para obter residência ficou para trás, e o futuro pertence a investimentos capazes de gerar desenvolvimento econômico real e mensurável.