
A ofensiva dos Estados Unidos contra o narcotráfico na América Latina está prestes a sair do mar e chegar ao solo de países parceiros da região. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, afirmou na quarta-feira, 12 de agosto, que a estratégia militar usada para interceptar embarcações em águas internacionais será replicada em terra, ampliando o raio de ação das forças americanas para atingir organizações de tráfico onde quer que estejam operando, inclusive em nações que não integram a Coalizão Anticartéis das Américas.
A declaração representa uma escalada no confronto direto entre Washington e as redes do crime organizado no hemisfério e reposiciona a política externa americana para a região em uma lógica de guerra contra o terrorismo. Segundo Hegseth, as chamadas DTOs, organizações designadas como terroristas, passarão a ser tratadas pelo mesmo padrão de ameaça que há anos orienta as campanhas americanas contra o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.
Hegseth confirma a ampliação das operações para o ambiente terrestre
Em suas declarações, o secretário afirmou que os grupos envolvidos com o narcotráfico poderão ser alcançados pelas forças americanas em qualquer território, partindo da parceria com países como Equador e Colômbia para estruturar a nova fase da campanha. Ele disse que o mesmo efeito já visto no combate marítimo será aplicado em terra, o que sinaliza a preparação de ações diretas contra estrutura logística dos cartéis no interior de países latino-americanos.
A ampliação ocorre em um momento simbólico para a coalizão: a Colômbia aderiu ao grupo nesta semana, tornando-se um dos principais eixos para a execução das operações americanas. Hegseth não detalhou prazos, regras de engajamento ou necessidade de autorização dos governos anfitriões, mas o tom do anúncio sugere que Washington assume a prerrogativa de agir de forma autônoma contra as organizações que classifica como terroristas.
A lógica de guerra e a comparação com o combate ao jihadismo
Ao associar os cartéis a grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, Hegseth estabeleceu uma moldura estratégica que permite aos Estados Unidos tratarem o problema do narcotráfico como uma ameaça militar transnacional, e não como uma questão de segurança pública ou cooperação policial. Essa mudança de enquadramento jurídico-político amplia as possibilidades de atuação das forças armadas americanas na região.
O secretário foi direto ao afirmar que o objetivo não é submeter os líderes dessas redes a processos judiciais, mas sim destruir as organizações com todas as capacidades do governo americano. Essa posição, que afasta a possibilidade de captura e julgamento pelas vias tradicionais, reforça a disposição de Washington de atuar militarmente sem depender da cooperação dos sistemas de Justiça locais.
Saldo marítimo: pelo menos 215 mortos desde setembro
Desde setembro do ano passado, forças americanas atacam embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no leste do Oceano Pacífico. Os dados apresentados até agora indicam que essas operações deixaram pelo menos 215 mortos, em um sinal do alto poder de fogo empregado pela campanha naval.
A transposição dessa lógica para o ambiente terrestre abre um novo capítulo na política de segurança americana para o continente. Ainda não há informações sobre como os países anfitriões receberão a presença de tropas americanas em grande escala, mas a articulação com Equador e Colômbia é apresentada como o primeiro passo de uma expansão que pode alcançar também o México e o Brasil.
Brasil fora da coalizão, mas com facções na lista de terroristas
O Brasil não integra a Coalizão Anticartéis das Américas, iniciativa que reúne 19 países, entre eles Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Honduras e Peru. Em junho, porém, os Estados Unidos incluíram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas, em uma decisão que já vinha tensionando as relações bilaterais.
A nova declaração de Hegseth acrescenta mais um componente a esse cenário: como ele afirmou que as organizações podem ser atingidas onde quer que estejam operando, inclusive fora dos países da coalizão, o território brasileiro não estaria formalmente imune a ações americanas. A ausência do Brasil na aliança, aliada à designação de suas principais facções como grupos terroristas, transforma o país em um ponto delicado na nova geografia militar desenhada por Washington.
A abrangência do novo alvo: do fentanil ao conflito colombiano
Hegseth citou diferentes frentes do crime organizado que podem ser alcançadas pela nova estratégia, desde o comércio de cocaína na América do Sul até o tráfico de fentanil no México. Ele também mencionou os remanescentes de guerrilhas colombianas entre os grupos considerados alvos, ampliando o espectro da operação para um conflito interno historicamente complexo.
O México, apesar de abrigar alguns dos maiores cartéis da região, permanece fora da coalizão. Ainda assim, o secretário deixou claro que a não adesão ao grupo não representa qualquer tipo de proteção: o critério central para a ação americana é a atividade de tráfico e a ameaça ao povo americano e aos parceiros de Washington na região.





