Os Estados Unidos continuam sendo o maior destino individual de estudantes internacionais do mundo, mas a geografia dessa demanda atravessa uma recomposição profunda. Segundo dados reunidos pelo Visual Capitalist com base no relatório Open Doors 2025 do Institute of International Education (IIE), 1,18 milhão de estudantes estrangeiros estavam matriculados em faculdades e universidades americanas no ano acadêmico 2024/25, alta de 5% sobre o ciclo anterior. O patamar é recorde e equivale a cerca de 6% de toda a matrícula do ensino superior do país. Sob o total agregado, emergem dois movimentos simultâneos: a consolidação da Índia como principal origem, a queda do fluxo chinês e um sinal claro de desaceleração na entrada de novos alunos.

A virada de liderança entre Índia e China

A Índia encerrou o ciclo 2024/25 com 363.019 estudantes nos Estados Unidos, equivalentes a 30,82% do total e um crescimento de 9,5% sobre os 331.602 registrados em 2023/24. A China, que durante anos liderou o ranking, recuou 4,1%, de 277.398 para 265.919 alunos, ou 22,58% do conjunto. Juntas, as duas nações concentram aproximadamente 53% de toda a população de estudantes internacionais no sistema americano.

A relevância do dado está menos no tamanho absoluto e mais na direção das curvas. Enquanto o fluxo indiano avança em ritmo firme, o chinês perde tração. Essa assimetria altera a composição da demanda por cursos, o perfil das turmas de pesquisa e a distribuição regional dos campi com maior presença estrangeira. Nenhum dos dois países perdeu peso relativo a ponto de comprometer a posição dominante do duopólio: a distância para o terceiro colocado segue ampla.

O terceiro maior emissor é a Coreia do Sul, com 42.293 alunos, ou 3,59% do total, seguida por Canadá (29.903) e Vietnã (25.584). A diferença entre o segundo colocado e o quinto supera 240 mil estudantes — um abismo que ilustra o grau de concentração no topo da lista e reforça a leitura de que o sistema americano depende de um núcleo estreito de origens.

Concentração no topo e diversificação na base

Fora do pelotão principal, a lista de origens revela um padrão duplo. De um lado, um grupo de países de renda média e populações jovens cresce em ritmo muito acima da média; de outro, mercados tradicionais estagnam ou recuam. Nepal (+48,7%, para 24.890 alunos), Gana (+36,5%, 12.825), Paquistão (+19,8%, 13.165), Bangladesh (+17,9%, 20.156) e Vietnã (+15,9%) estão entre os avanços mais expressivos do ciclo. São origens com forte presença em graduação e pós-graduação e que ampliam a base de países de onde vem a demanda.

Na ponta oposta, nomes de peso registraram retração. A Arábia Saudita caiu 14,3%, para 12.702 estudantes. Omã recuou 19,9%, para 1.401. A Dinamarca perdeu 11,8%, a Malásia 6,9% e a Tailândia 5,4%. Entre os países de grande população, os destaques negativos ficam com China, Coreia do Sul (-2,0%) e Japão (-1,0%, 13.814), que juntos sinalizam que a Ásia Oriental perde participação relativa na composição do contingente.

Ao longo da cauda longa, países como Zimbábue (+42,2%), Quirguistão (+41,9%), Bósnia e Herzegovina (+109,3%) e a Micronésia (+85,7%) aparecem com expansões de dois dígitos, mas sobre bases pequenas. O ponto estrutural é que a lista segue profundamente dependente de um núcleo reduzido de emissores: os dez maiores respondem por mais de 70% do contingente total, e o restante se distribui por dezenas de origens com volumes individuais marginais. Mais do que um sinal de diversificação robusta, esse perfil revela que qualquer oscilação relevante em uma economia média pode alterar a fotografia do ranking.

O recorde que esconde uma base em transformação

O total recorde de 2024/25 foi sustentado em parte por um componente que não corresponde a novos alunos: o Optional Practical Training (OPT), programa que permite a graduados elegíveis trabalhar temporariamente em sua área de estudo. A participação no OPT saltou 21%, alcançando 294.253 estudantes. No mesmo ciclo, a matrícula de novos alunos internacionais caiu 7%.

Essa divergência se acentuou no outono de 2025. Uma amostra do IIE com 828 instituições americanas apontou queda de 17% na entrada de novos estudantes internacionais em relação ao ano anterior. Dentro desse total, a pós-graduação recuou 12%, enquanto a graduação subiu 2% e a participação no OPT avançou 14%. O retrato sugere um sistema em que o estoque ainda cresce, mas o fluxo de entrada perde força — dinâmica que só aparece quando o dado agregado é decomposto.

Para estudantes indianos e chineses, o OPT tem peso estratégico. O programa permite ganhar experiência profissional após a formatura e serve, em muitos casos, como ponte para o patrocínio de vistos H-1B, categoria voltada a trabalhadores qualificados. Quando a entrada de novos alunos desacelera e o OPT cresce, o efeito de curto prazo é manter o contingente total elevado; o risco de médio prazo é de encolhimento gradual à medida que os graduados deixam o sistema e menos novos chegam para substituí-los.

Política migratória, experiência no campus e concorrência global

As regras de visto são apenas parte da equação. Uma pesquisa de 2024 citada pelo Migration Policy Institute revelou que 60% dos 1.252 estudantes chineses de pós-graduação entrevistados relataram ter sofrido discriminação no campus. O estudo concentrou-se principalmente em alunos das áreas de STEM, e muitos entrevistados também mencionaram a qualidade educacional e a experiência de vida como razões para escolher os Estados Unidos.

A incerteza regulatória também aumentou. Mudanças e propostas recentes incluíram triagem mais rigorosa de vistos e restrições que afetam estudantes internacionais, ainda que algumas medidas tenham enfrentado questionamentos na Justiça. Somadas à concorrência crescente de universidades em outros países, essas forças podem influenciar onde futuros estudantes escolherão se matricular.

Nesse contexto, o duopólio Índia-China funciona como amortecedor e como vulnerabilidade ao mesmo tempo. Como os dois países respondem por mais da metade do contingente, qualquer inflexão relevante em um deles produz efeito imediato sobre o total. A queda de 4,1% da China em 2024/25 foi compensada pelo avanço indiano de 9,5% e pelo crescimento de origens secundárias, mas essa compensação depende de taxas de expansão que podem não se repetir indefinidamente.

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O que os números dizem sobre a estrutura da demanda

A leitura estrutural do levantamento aponta para três traços que devem sobreviver a oscilações conjunturais. O primeiro é a concentração persistente: poucos países alimentam a maior parte do contingente, e mudanças de liderança no topo — como a virada da Índia sobre a China — acontecem dentro de um grupo restrito, sem alterar a lógica de dependência. O segundo é a ascensão de origens de renda média, sobretudo no sul da Ásia e na África subsaariana, que ampliam a base do sistema. O terceiro é a crescente importância do OPT como componente do estoque, o que desloca parte do valor econômico associado ao estudante da sala de aula para o mercado de trabalho qualificado.

Para o ensino superior americano, o significado prático é que o crescimento futuro depende cada vez menos de um único país e cada vez mais da capacidade de atrair e reter talentos de origens diversas, em um ambiente de regras migratórias mais incertas e de concorrência internacional mais acirrada. O recorde de 1,18 milhão de estudantes em 2024/25 é, nesse sentido, tanto um ponto de força quanto um lembrete de que a base que sustenta esse número está em transformação — e de que o ciclo seguinte já sinaliza que a expansão pode dar lugar à acomodação.