
O Serviço Meteorológico da Austrália confirmou nesta terça-feira (16) a formação de um El Niño no Pacífico tropical que, segundo projeções, pode se tornar um dos mais intensos das últimas sete décadas. O alerta, baseado no aquecimento anômalo das águas superficiais e em indicadores atmosféricos convergentes, sinaliza riscos severos para a produção agrícola nas Américas e na Ásia, com potencial de agravar a insegurança alimentar na região mais populosa do planeta. Analistas de commodities monitoram de perto os desdobramentos, que já começam a impactar os mercados futuros de grãos e carnes.
Impactos já previstos na Ásia e nas Américas
O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento periódico das temperaturas da superfície do mar no Pacífico central e oriental, deve intensificar-se no segundo semestre de 2026. Os meteorologistas australianos esperam que o El Niño provoque chuvas excessivas em partes das Américas, enquanto condições de calor extremo e seca se instalam sobre a Ásia. O plantio na região asiática já enfrenta prejuízos, elevando preocupações com o abastecimento de alimentos em um continente que concentra mais da metade da população mundial.
Dados do serviço meteorológico indicam que as temperaturas oceânicas já ultrapassaram os limiares do El Niño e que todos os indicadores atmosféricos confirmam o evento. ‘As previsões apontam para um El Niño forte a muito forte, com base na extensão do aquecimento no Pacífico tropical central’, informou a entidade em comunicado. Cerca de metade dos modelos climáticos projeta que o pico do fenômeno estará entre os mais altos registrados desde 1950.
Preocupações com o abastecimento de alimentos na região mais populosa
A Ásia, maior produtora e consumidora de arroz, trigo e óleos vegetais do mundo, é particularmente vulnerável a estiagens prolongadas. O déficit hídrico durante o El Niño compromete a safra de grãos na Índia, Indonésia, Tailândia e partes da China, forçando governos a recorrerem a estoques estratégicos e a aumentarem importações. A pressão sobre os preços internacionais já se reflete nos contratos futuros de trigo e soja negociados em Chicago, que registraram alta de mais de 3% nas últimas sessões.
O cenário se agrava com a expectativa de que as mudanças climáticas intensifiquem os efeitos do El Niño. Cientistas apontam que o aquecimento global eleva a temperatura de base dos oceanos, amplificando os extremos hidrológicos. Para o continente asiático, isso significa ondas de calor mais frequentes e chuvas irregulares, o que coloca em xeque a meta de segurança alimentar da região.
Recordes históricos e comparações com eventos anteriores
O último El Niño registrado na Austrália, entre 2023 e 2024, já havia causado o trimestre mais seco da história local. O evento de 2015-2016, um dos mais fortes já medidos, provocou uma seca generalizada na Oceania e reduziu a produção global de grãos e oleaginosas. Agora, com a perspectiva de um El Niño de magnitude similar ou superior, os riscos se ampliam. ‘Cerca de metade dos modelos indica que esse evento poderá atingir picos entre os mais altos observados desde 1950’, reforça o comunicado do serviço meteorológico australiano.
Para a Austrália, o impacto é direto sobre sua balança comercial. O país está entre os maiores exportadores mundiais de trigo, açúcar e carne bovina. O fenômeno está associado a menos chuvas no inverno e na primavera na costa leste, além de temperaturas diurnas mais altas no sul, o que reduz a produtividade das pastagens e das lavouras. A combinação de estiagem e calor deve pressionar os preços domésticos e reduzir a oferta exportável.
Consequências para a economia australiana e mercados de commodities
O El Niño representa um choque de oferta para o setor agropecuário australiano, que já vinha se recuperando de quebras anteriores. A redução na colheita de trigo, prevista para o final de 2026, deve diminuir as exportações para mercados asiáticos, onde a demanda por cereais segue aquecida. A carne bovina, outro pilar da pauta exportadora, sofrerá com a escassez de pastagens e o aumento dos custos de alimentação animal. Analistas do banco agrícola Rabobank estimam que o PIB australiano pode perder até 0,5% caso o El Niño se confirme na intensidade projetada.
No mercado global, a expectativa de oferta restrita já impulsiona os preços do trigo e do açúcar para patamares vistos pela última vez em 2022, durante a crise na Ucrânia. O ministro da Agricultura australiano declarou que o governo prepara linhas de crédito emergenciais para produtores rurais e que monitora os estoques reguladores. A situação reforça a necessidade de diversificação de origens para os importadores asiáticos, que podem recorrer à América do Sul e ao Mar Negro para suprir as lacunas.





