Primeiro voo internacional do C919 desafia Airbus e Boeing

O jato comercial C919, fabricado pela estatal chinesa Comac, cruzou pela primeira vez a fronteira da China em uma operação regular de passageiros. O voo, realizado pela Air China, partiu de Pequim na quarta-feira e aterrissou em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, cerca de duas horas depois. A estreia internacional ocorre em um momento de acirramento das tensões comerciais entre Pequim, Washington e Bruxelas e coloca em perspectiva o domínio histórico de Airbus e Boeing no segmento de aeronaves narrow-body.

Estreia internacional expõe avanço da Comac no mercado de jatos

Com capacidade para até 174 passageiros, o C919 é um bimotor de corredor único, com três assentos de cada lado, exatamente o desenho mais disputado da aviação comercial global — um território historicamente concentrado na família A320, da Airbus, e no 737, da Boeing. A rota para a Mongólia é curta, mas carrega um peso estratégico relevante: é a primeira vez que o modelo opera fora do ambiente doméstico chinês em uma linha comercial regular.

A Comac ainda não obteve o aval da agência americana FAA nem da europeia EASA, as duas principais certificadoras do setor. Sem esse reconhecimento, o C919 fica restrito a mercados que aceitam a validação feita pela autoridade chinesa. Ainda assim, a operação internacional representa um marco no plano da estatal de reduzir a dependência externa em um dos poucos segmentos industriais em que o país não é autossuficiente.

O voo para a capital da Mongólia também precisa ser lido pelo histórico do programa. O C919 chegou ao mercado depois de anos de atraso no desenvolvimento, e a saída do território chinês sinaliza que a Comac pretende avançar fase por fase na construção de uma presença global, ainda que o caminho até a certificação ocidental seja longo.

Certificação, motores importados e o atrito com a Europa

Um dos principais gargalos do C919 é o processo regulatório. A partir de maio, o governo chinês passou a adiar a liberação de entregas da Airbus no país, movimento interpretado como resposta à demora das autoridades europeias em certificar os novos jatos da Comac. O impasse adiciona mais um capítulo à disputa econômica entre China e União Europeia.

Há ainda a dependência de elos críticos da cadeia global. O sistema de propulsão do C919 é produzido pela CFM International, empresa resultante de uma joint venture entre a GE Aerospace e a Safran Aircraft Engines, da França. Ou seja, mesmo a aeronave desenhada para simbolizar a autossuficiência chinesa segue exposta a fornecedores ocidentais em um componente vital.

A ausência da certificação FAA e EASA não impede a operação em países alinhados à China, mas bloqueia o acesso aos dois maiores mercados de aviação do planeta. A estratégia de Pequim, por ora, é consolidar a aeronave em rotas regionais e em nações do entorno asiático antes de tentar voos para destinos mais distantes.

Guerra tarifária com os EUA remodela o fluxo de encomendas

O contexto geopolítico, amplamente acompanhado pelo noticiário de exterior, joga a favor da Comac. Com a guerra tarifária iniciada por Donald Trump, Pequim reduziu as importações de aeronaves da Boeing. As companhias aéreas chinesas, que em outro momento responderam por mais de 20% das vendas da fabricante americana, hoje representam cerca de 5% do total.

No lado europeu, o peso da China é ainda mais expressivo. A Airbus tem no mercado chinês sua maior base de clientes, com projeções de vendas superiores a 9.000 aeronaves nas próximas duas décadas. Esse volume dá a Pequim uma alavanca relevante nas negociações e ajuda a explicar a sensibilidade em torno da certificação do C919 pelas autoridades europeias.

Internamente, o governo chinês controla as três maiores companhias aéreas do país, que juntas detêm metade da capacidade doméstica de transporte aéreo. Essa estrutura assegura à Comac uma carteira cativa de compradores e reduz o risco comercial do programa, enquanto a fabricante tenta ganhar escala e maturidade operacional.

Produção ainda lenta e o desafio da confiabilidade operacional

Apesar do avanço, analistas do setor avaliam que a Comac segue distante de romper o duopólio. O analista Rob Morris considera o ritmo de desenvolvimento e produção da fabricante chinesa ainda lento para ameaçar as líderes. A própria evolução das entregas ajuda a dimensionar o desafio: a Comac colocou no mercado 32 unidades do C919 no ano passado, número que corresponde a um terço do total de aeronaves repassadas pela Airbus à China no mesmo intervalo.

Morris ressalta que dominar a fabricação é apenas uma parte do caminho. Para que o C919 se equipare aos concorrentes em confiabilidade, a Comac precisa montar uma estrutura de suporte em operação 24 horas por dia, sete dias por semana, ao longo de todo o ano. Sem isso, o modelo dificilmente alcançará o nível de previsibilidade que fez do A320 e do 737 referências globais.

Esse nível de maturidade, segundo o analista, leva tempo para ser construído. No curto prazo, a entrega de 32 jatos no último ano mostra que a Comac ainda opera em escala bastante inferior à das gigantes ocidentais, o que reforça a avaliação de que a ameaça ao duopólio é mais estrutural e de longo prazo do que imediata.

Embraer e a disputa no segmento regional

Se no segmento narrow-body a disputa ainda é incipiente, no mercado de jatos regionais a China já impõe maior pressão. O C909, também da Comac, teve 186 aeronaves entregues desde a estreia comercial em junho de 2016, quando ainda era chamado de ARJ21. O modelo detém 70% de participação na frota de aeronaves regionais, em um segmento historicamente dominado pela Embraer.

A expansão do C909 é turbinada por incentivos do governo chinês, que combina encomendas domésticas e apoio à internacionalização do produto. Fora da China, o jato está em serviço no Laos, na Indonésia e no Vietnã, incluindo rotas internacionais que conectam esses países, um sinal de que a Comac começa a disputar espaço também na periferia do mercado asiático.

No front oposto, a Embraer mantém 195 jatos da família E2 em serviço atualmente, além de uma carteira com mais de 500 encomendas firmes previstas para os próximos anos. A diferença de escala e o histórico de suporte da fabricante brasileira ainda a colocam em posição de vantagem, mas a presença crescente da Comac no segmento regional deve ser acompanhada de perto pelo setor.