Bandeira da Venezuela, plataforma de petróleo e minerais estratégicos em contexto geopolítico
Mudança política na Venezuela reacende debate sobre petróleo, minerais críticos e geopolítica.

A remoção de Nicolás Maduro do poder e o reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina inauguram uma nova fase de riscos e oportunidades para mercados emergentes, commodities e fluxos de capital, segundo análises recentes do BTG Pactual. Embora o impacto econômico imediato seja limitado, o banco avalia que os desdobramentos geopolíticos podem influenciar preços de energia, metais estratégicos e a dinâmica política da região ao longo dos próximos anos .

Reação inicial dos mercados foi contida

De acordo com o BTG, a reação dos mercados latino-americanos ao colapso do regime venezuelano foi moderada. A avaliação é que, após décadas de isolamento, a Venezuela se tornou economicamente marginal para a região, o que ajuda a explicar a ausência de movimentos bruscos em moedas, bolsas e commodities no curto prazo.

A produção de petróleo venezuelana, atualmente em torno de 900 mil barris por dia, representa apenas uma fração do que o país produzia antes da era chavista. Além disso, a reconstrução do setor exigiria investimentos estimados em até US$ 100 bilhões, o que limita qualquer impacto relevante sobre a oferta global de petróleo no horizonte imediato.

Normalização pode gerar efeitos relevantes no médio e longo prazo

Apesar da reação inicial contida, o BTG avalia que uma eventual normalização institucional da Venezuela poderia gerar efeitos econômicos relevantes no médio e longo prazo. Entre os principais beneficiários estariam países vizinhos, especialmente a Colômbia, antiga principal parceira comercial do país, além de setores ligados a petróleo, gás, infraestrutura e materiais de construção.

O banco destaca que uma recuperação gradual da economia venezuelana poderia impulsionar empresas regionais com histórico de atuação no país e alterar fluxos comerciais, com possíveis efeitos secundários sobre preços de cimento, energia e serviços logísticos na América Latina.

Petróleo segue como variável-chave para a região

No campo das commodities, o BTG ressalta que qualquer aumento significativo da produção venezuelana levaria anos para se materializar e dependeria de um ambiente regulatório estável, investimentos estrangeiros e capacidade operacional. Ainda assim, o retorno potencial de até 2 milhões de barris por dia ao mercado global é visto como um fator de risco estrutural para preços do petróleo no longo prazo.

Países produtores, como Argentina e Colômbia, seriam mais sensíveis a um cenário de queda sustentada nos preços do petróleo, enquanto economias importadoras líquidas de energia, como Chile e Peru, tenderiam a se beneficiar de custos mais baixos e alívio inflacionário .

Minerais críticos ganham relevância estratégica

Paralelamente ao redesenho geopolítico na América Latina, o BTG chama atenção para o avanço de projetos ligados a terras raras e minerais estratégicos, em meio à tentativa do Ocidente de reduzir a dependência da China nesse segmento. O banco destaca iniciativas no Brasil, como o projeto Colossus, que avançou na estruturação de financiamento com apoio de agências internacionais de crédito à exportação .

Segundo o relatório, a concentração da produção global de terras raras na China segue elevada, o que reforça o interesse estratégico por projetos fora do eixo asiático, especialmente em um ambiente de maior fragmentação geopolítica.

Ambiente macro global permanece incerto

No cenário macroeconômico internacional, o BTG observa que os mercados iniciam 2026 sem direção clara, com expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos ao longo do ano e sinais mistos de atividade na Europa. O banco destaca que a reprecificação de riscos geopolíticos, combinada à transição monetária global, tende a manter a volatilidade elevada nos próximos trimestres .

Nesse contexto, commodities metálicas como o cobre já refletem restrições de oferta, enquanto ativos ligados a energia e matérias-primas seguem sensíveis a eventos políticos e estratégicos.

Comentário – Fábio Murad

Para Fábio Murad, CEO da SpaceMoney e criador do método Super ETF, o novo cenário reforça a importância de uma abordagem disciplinada e diversificada nos investimentos globais.

Segundo ele, choques geopolíticos costumam gerar ruído no curto prazo, mas também criam distorções de preços que favorecem estratégias baseadas em fundamentos. “Eventos como esse mostram por que o investidor não deve concentrar risco em um único país, setor ou tese. Diversificação global e foco em ativos reais continuam sendo pilares para atravessar ciclos de incerteza”, afirma.