Os onze integrantes do Brics encerraram nesta quarta-feira a 18ª Cúpula do bloco, realizada em Nova Délhi, com a divulgação de um documento conjunto que recoloca a agenda do grupo no epicentro das disputas por governança mundial. O texto, de natureza política, opera como roteiro de atuação coordenada em organismos multilaterais e sinaliza que a coalizão pretende transformar massa econômica em influência institucional concreta.
A dimensão material do grupo explica a ambição. Os países-membros respondem por 39% da economia do planeta, reúnem 48,5% da população mundial e concentram 23% das trocas comerciais internacionais, números que sustentam reivindicações que vão da reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas à construção de canais financeiros menos dependentes de infraestruturas ocidentais.
O documento aborda governança global, comércio, desenvolvimento sustentável, clima, tecnologia, segurança internacional e cooperação entre nações em desenvolvimento. Suas diretrizes tendem a ser levadas a fóruns como a ONU, o G20 e a Organização Mundial do Comércio nos próximos meses, num cenário marcado por guerras, tensões alfandegárias e questionamentos sobre a legitimidade das instituições multilaterais.
A geometria de um bloco que já não cabe em sua sigla original
Formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o agrupamento hoje incorpora Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A expansão alterou o perfil da coalizão, que passou a combinar exportadores de energia, economias industriais e centros financeiros regionais sob um mesmo guarda-chuva diplomático.
Essa heterogeneidade impõe desafios de coordenação, mas também amplia o alcance das reivindicações. Os percentuais citados no texto final servem como argumento para pleitos de maior representatividade em instâncias decisórias historicamente dominadas por economias avançadas.
A ênfase em cooperação entre países em desenvolvimento, frequentemente descrita como cooperação Sul-Sul, aparece como eixo transversal do documento e conecta temas tão distintos quanto financiamento de infraestrutura, transferência tecnológica e acesso a mercados agrícolas.
Novo Banco de Desenvolvimento amplia mandato e busca novos sócios
Os líderes dedicaram atenção específica ao Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do Brics, tratado no documento como instrumento estratégico para financiar infraestrutura e projetos de desenvolvimento sustentável. A orientação é ampliar a capacidade de mobilização de recursos, diversificar as fontes de financiamento e expandir operações denominadas em moedas locais.
O texto também endossa a ampliação do quadro de membros da instituição e a análise dos pedidos de adesão já protocolados por países interessados, movimento que, na prática, pode diluir o controle dos fundadores e ampliar a base de capital disponível para novas operações.
Um portal de conhecimento, desenvolvido em parceria entre o bloco e a instituição, foi anunciado como plataforma para compartilhar experiências, boas práticas e informações sobre projetos financiados. A iniciativa pretende dar visibilidade ao portfólio e padronizar dados entre os países tomadores de crédito.
Pagamentos transfronteiriços e a lógica das moedas locais
A declaração dedica um eixo às discussões sobre mecanismos de pagamento entre os membros. Sem citar nominalmente nenhum sistema nacional, o documento defende princípios aplicáveis a arranjos como o Pix: interoperabilidade entre plataformas, aprimoramento das transferências transfronteiriças, integração de canais de mensagens financeiras e ampliação das liquidações comerciais em moedas locais.
O objetivo declarado é desenvolver mecanismos mais rápidos, baratos, acessíveis, eficientes, transparentes e seguros para operações internacionais. Na prática, a agenda reduz a dependência de redes de compensação tradicionais e abre espaço para que o comércio intrabloco seja liquidado sem conversão prévia para divisas de reserva.
Para o setor financeiro, o desenho sugerido implica custos de transação menores e prazo de liquidação mais curto, mas também exige padronização regulatória e cooperação entre bancos centrais, obstáculo técnico e político que costuma retardar implementações desse tipo.
Reforma do Conselho de Segurança e o eixo Brasil-Índia
Entre os pontos de maior interesse para o Brasil, o documento reforça a defesa de uma reforma da ONU e, em particular, do Conselho de Segurança. China e Rússia reiteraram apoio ao papel ampliado de Brasil e Índia na estrutura decisória das Nações Unidas.
A sinalização tem peso relevante, porque qualquer mudança no Conselho depende de emenda à Carta da ONU e exige aval de dois terços da Assembleia Geral, além dos votos dos cinco membros permanentes. Sem o respaldo explícito de Moscou e Pequim, a pauta já nasceria inviável.
O alinhamento em torno do tema também serve de teste para a coesão do grupo, que reúne países com posições divergentes sobre sanções econômicas, conflitos regionais e arquitetura de segurança coletiva.
O que a declaração sinaliza para mercados e comércio
Do ponto de vista prático, o documento funciona como sinal de política econômica para investidores expostos a mercados emergentes. A ênfase em liquidação em moedas locais e em financiamento alternativo tende a reduzir, no médio prazo, a demanda por dólares em operações intrabloco, movimento que afeta prêmios de risco cambial e a formação de spreads em emissões soberanas.
A ampliação do banco do bloco também pode alterar a concorrência por projetos de infraestrutura na África, na Ásia e na América Latina, hoje majoritariamente financiados por instituições de Bretton Woods e por credores bilaterais. Para governos tomadores, isso significa mais alternativas de funding e maior margem de negociação sobre condicionalidades.
No radar do exterior, a próxima etapa é observar como essas diretrizes se traduzem em decisões concretas nas reuniões da ONU, do G20 e da OMC ao longo dos próximos meses.




