As bolsas europeias encerraram a sessão desta segunda-feira, 10, sem um rumo comum, com o FTSE 100 londrino no vermelho enquanto DAX e CAC 40 avançaram, em um pregão marcado pela ausência de indicadores relevantes e pela permanência do impasse diplomático em torno do Estreito de Ormuz. O movimento ocorreu em meio a exigências consideradas rígidas do Irã para que a passagem marítima seja reaberta, mantendo o petróleo sob pressão e contaminando o apetite por risco nos principais mercados acionários do continente.

Ormuz segue como epicentro da cautela global

O Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo negociado no planeta, segue no centro das atenções. As negociações para uma eventual reabertura da via continuam indefinidas, com o Irã mantendo condições consideradas rígidas para que a passagem volte a operar. Essa combinação de incerteza geopolítica e oferta ameaçada sustenta as cotações da commodity e limita o apetite por ativos de risco.

Sem agenda econômica relevante na zona do euro, os investidores direcionaram o foco para o cenário externo. Nos Estados Unidos, os dados fracos do mercado de trabalho divulgados na sexta-feira adicionaram peso à expectativa pelo índice de preços ao consumidor de quarta-feira, que deverá dar pistas sobre os próximos passos do Federal Reserve. No Brasil, o dólar à vista subia a R$ 5,11, refletindo a mesma tensão entre Washington e Teerã.

Londres recua pressionada por consumo e seguros

O FTSE 100 fechou em queda de 0,35%, aos 10.862,50 pontos, acumulando a maior perda entre as principais praças europeias. A sessão foi pressionada por movimentos corporativos relevantes na Bolsa de Londres, que afetaram diretamente o humor dos investidores em setores como consumo, construção e crédito.

A Imperial Brands recuou 5,30% após anunciar o corte de milhares de postos de trabalho em operações nos Estados Unidos e na Europa. Já a construtora Vistry Group despencou mais de 11%, depois que a Allianz Trade passou a reduzir drasticamente a cobertura de seguro de crédito destinada aos fornecedores da companhia, um sinal de alerta sobre a saúde financeira da empresa e de sua cadeia de suprimentos.

No front regulatório, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, deve anunciar ainda hoje uma consulta pública para avaliar se empresas devem ser proibidas de divulgar preços de varejo sugeridos de forma enganosa, prática que infla ofertas de desconto e induz o consumidor a erro. A medida pode impactar o varejo e o setor de bens de consumo no país.

Tecnologia dá suporte a Frankfurt e Paris

Na contramão de Londres, o DAX de Frankfurt avançou 0,14%, aos 26.355,07 pontos, enquanto o CAC 40 de Paris subiu 0,13%, aos 8.726,03 pontos. O desempenho positivo foi sustentado pelo subíndice de tecnologia do Stoxx 600, que ganhou 1,08% na sessão, puxado por grandes nomes do segmento de semicondutores.

A ASML, listada em Amsterdã, subiu 1,28%, e a Infineon, de Frankfurt, avançou 0,78%. O movimento sugere uma retomada seletiva do interesse por papéis ligados a chips, em um momento em que investidores avaliam o impacto de eventuais restrições comerciais e a demanda global por semicondutores.

Milão, Madri e Lisboa recuam em leve tom defensivo

O FTSE MIB de Milão cedeu 0,10%, aos 53.663,88 pontos, o Ibex 35 de Madri recuou 0,16%, aos 20.155,69 pontos, e o PSI 20 de Lisboa caiu 0,29%, aos 9.155,00 pontos. As perdas modestas refletem um posicionamento mais cauteloso dos investidores na periferia da zona do euro, sem catalisadores locais capazes de reverter o sentimento externo.

Na Península Ibérica, o tema migratório voltou a ganhar destaque. A Espanha restabeleceu no domingo controles de fronteira para passageiros vindos da Itália em conexões aéreas e marítimas, após atrito com Roma sobre migração. A resposta italiana à decisão de Madri aprofundou a tensão bilateral e adicionou mais uma camada de incerteza política ao cenário europeu.

Sessão deixa claro que geopolítica segue no comando

As cotações desta segunda-feira são preliminares, mas o recado dos mercados é claro: enquanto não houver avanço concreto nas negociações sobre Ormuz, a volatilidade deve continuar elevada. A combinação de petróleo caro, inflação ainda relevante e política monetária restritiva mantém os investidores em modo defensivo na Europa.

A agenda dos próximos dias tende a ser decisiva. O CPI americano de quarta-feira pode redefinir as apostas sobre os juros nos Estados Unidos, enquanto qualquer novidade sobre o diálogo entre Irã e EUA tem potencial para mexer com as cotações do petróleo e, por tabela, com os índices acionários globais. Nesse ambiente, o noticiário de exterior segue determinando o humor dos mercados.