Greg Abel, no segundo trimestre à frente da Berkshire Hathaway, iniciou uma ofensiva de alocação de capital que reduziu pela primeira vez desde 2022 a colossal reserva de caixa do conglomerado. O grupo encerrou junho com US$ 365,5 bilhões em liquidez, 8% abaixo do recorde de US$ 397,4 bilhões registrado em março. Excluindo o caixa da BNSF e ajustando os títulos do Tesouro comprados e ainda não pagos, a queda foi de 3,8%, para US$ 359,2 bilhões, conforme métrica acompanhada de perto pela própria companhia.

Liquidez bilionária em movimento

O movimento de redução do caixa sinaliza uma mudança de postura estratégica na gestão de Abel, que substituiu Warren Buffett no comando do império de Omaha. A alocação de recursos em ativos produtivos, incluindo recompras de ações e possíveis aquisições, é vista como um teste ao estilo de gestão do novo CEO, que precisa equilibrar a tradição de segurança financeira da Berkshire com a pressão de investidores por retornos mais expressivos.

A queda de US$ 31,9 bilhões no caixa total é a mais relevante desde o início de 2022, período marcado por elevada incerteza macroeconômica. A redução, no entanto, ocorre em um cenário de juros ainda elevados nos Estados Unidos, o que torna o custo de oportunidade de manter liquidez parada mais alto. O mercado avalia que a realocação de recursos pode ter impacto direto no valuation das ações do conglomerado, que negociam com prêmio em relação à média histórica.

Recompra de ações ganha tração

Parte significativa do capital movimentado foi destinada à recompra de ações. A Berkshire desembolsou US$ 4,5 bilhões na recompra de seus papéis durante o segundo trimestre, um valor que ficou abaixo do intervalo estimado pela revista Barron, de US$ 5 bilhões a US$ 11 bilhões, e também inferior à projeção do analista Brian Meredith, do UBS, que esperava US$ 8,5 bilhões. Ainda assim, o montante representa um salto expressivo diante dos US$ 235 milhões aplicados no primeiro trimestre, quando a companhia voltou a recomprar ações após um hiato desde 2024.

A aceleração das recompras é interpretada por analistas como um sinal de confiança da administração na avaliação atual dos papéis. A executiva da CFRA Research, Cathy Seifert, afirmou ao Bloomberg que “as pessoas vão se sentir encorajadas com a recompra”, destacando que o movimento pode atrair investidores que aguardavam uma destinação mais agressiva do caixa. A recompra, embora menor do que o esperado, reforça a tese de que a Berkshire está disposta a usar seu balanço para sustentar o preço das ações.

Analistas acompanham a nova fase da Berkshire

A redução do caixa e a intensificação das recompras ocorrem em um momento de transição na gestão do conglomerado. Abel, que assumiu o cargo de CEO após a aposentadoria de Buffett, tem sido monitorado de perto por investidores institucionais e fundos soberanos que enxergam na Berkshire uma proxy para o mercado americano. A alocação do caixa é um dos principais indicadores de como a nova administração pretende navegar por um cenário de taxas de juros elevadas e valuation de ativos pressionado.

O consenso do mercado é de que a Berkshire deve manter uma política de recompras gradual, mas o fato de a companhia ter utilizado mais de US$ 4 bilhões em apenas três meses indica que Abel pode estar mais disposto a agir quando os preços apresentam oportunidades. A métrica de caixa excluindo BNSF e ajustes de títulos, que caiu para US$ 359,2 bilhões, é considerada a mais fiel à real capacidade de investimento da holding, e por isso é acompanhada com atenção por analistas que tentam antecipar os próximos passos.

Perspectivas para o segundo semestre

Com uma quantidade ainda colossal de liquidez, a Berkshire segue com espaço para novas aquisições ou recompras adicionais no segundo semestre. A expectativa é que o ritmo de alocação continue, especialmente se as condições de mercado permanecerem favoráveis. A redução do caixa total em 8% pode ser apenas o início de um processo de normalização, em que a holding busca rentabilizar seu balanço em um ambiente de juros ainda restritivos.

A gestora, que historicamente acumulou caixa em períodos de incerteza, parece agora entrar em uma fase de utilização mais ativa dos recursos. O mercado seguirá de olho nos próximos balanços para verificar se Abel manterá a política de devolver capital aos acionistas ou se partirá para aquisições de maior porte, em um contexto que dialoga com o exterior. A Berkshire, com US$ 365,5 bilhões em caixa e uma posição de liquidez que ainda é a maior do mundo corporativo, continua sendo um termômetro para a estratégia de grandes conglomerados nos Estados Unidos.