O governo federal expandiu o programa Move Aplicativos para financiar carros usados, mas a aprovação de crédito continua sendo o principal entrave para motoristas de aplicativo e taxistas. Até 14 de julho, dos R$ 30 bilhões reservados, apenas R$ 1 bilhão foi efetivamente empenhado, o que representa apenas 3% do total. Os dados escancaram um gargalo que vai além dos juros baixos oferecidos.

Regras para financiamento de veículos seminovos

Para acessar a linha de crédito com taxas reduzidas para adquirir um carro usado, o motorista precisa atender a critérios específicos. O veículo deve custar até R$ 150 mil, ser elétrico ou híbrido flex (híbridos só a gasolina não entram), fabricado a partir de 2024 e de uma montadora habilitada no programa Mover. No mercado de seminovos, as opções híbridas são escassas nessa faixa de preço. Segundo a tabela Fipe, versões híbridas do Fiat Pulse (R$ 107.493), Fiat Fastback (R$ 117.746), Peugeot 2008 GT (R$ 146.415) e Peugeot 208 GT (R$ 120.769) estão disponíveis.

Já os modelos elétricos são mais numerosos. Entre os que se encaixam no limite de R$ 150 mil estão o BYD Dolphin Mini (R$ 98.136), BYD Dolphin (R$ 118.540), GWM Ora 03 (R$ 120.391), GAC Aion UT (R$ 128.790), Chevrolet Spark EUV (R$ 139.020), Geely EX2 (R$ 113.882) e Renault Kwid E-Tech (R$ 81.412). Apesar da variedade, a oferta não tem garantido alta adesão.

Dificuldade de acesso ao crédito trava adesão

Especialistas apontam que o principal obstáculo não é o preço do veículo ou os juros, mas sim a análise de crédito. A economista Tereza Fernandez destacou que, se os motoristas tivessem condições, o montante emprestado já teria explodido, como ocorreu em programas anteriores. Ela acrescentou que mesmo com juros mais baixos, a prestação de um carro de R$ 120 mil continua pesada para um motorista de aplicativo.

O consultor automotivo Milad Kalume Neto observou que o risco de inadimplência está todo com a instituição financeira, e que elas estão reticentes em liberar crédito. Ele afirmou que, das nove instituições que operam no programa, apenas duas são consideradas mais acessíveis. Armando Castelar, pesquisador da FGV Ibre, lembrou que as famílias chegam ao financiamento já altamente endividadas, tanto em valor total quanto no serviço da dívida, que estão em níveis recordes.

Leandro Cruz, presidente do sindicato dos motoristas de aplicativo de São Paulo, confirmou que muitos profissionais que faturam entre R$ 10 mil e R$ 12 mil mensais estão negativados e têm seus pedidos de financiamento negados. Ele ainda alertou que a garantia oferecida por um seminovo é menor, exigindo cautela redobrada com possíveis fraudes de quilometragem ou histórico do veículo.

Endividamento recorde das famílias agrava cenário

Dados do Serasa reforçam o diagnóstico: em junho de 2026, o Brasil registrou 83,7 milhões de endividados, 17,2% a mais do que em 2023, quando eram 71,4 milhões. Esse é o maior número da série histórica, com alta por 18 meses consecutivos. O endividamento elevado reduz tanto a disposição dos motoristas para assumir novas prestações quanto a disposição dos bancos em conceder crédito, mesmo com juros subsidiados.

A Fenauto e a Anef também expressaram preocupações semelhantes. O presidente da Fenauto, Everton Fernandes, afirmou que, se os critérios de análise de risco permanecerem os mesmos, muitos profissionais continuarão sem acesso ao financiamento. Na mesma linha, Enilson Sales, presidente da Anef, destacou que as recusas de propostas devem ocorrer por absoluta falta de condições de honrar o crédito, e que em alguns casos será exigida entrada para mitigar riscos.

Posição do BNDES e instituições financeiras

O BNDES, por meio de nota, informou que não há problemas na instituição para o repasse dos valores. O banco afirma que acompanha a execução do programa e mantém interlocução com os agentes financeiros credenciados. A aprovação das operações ocorre de forma gradual, cabendo a cada instituição financeira a análise de crédito individual. Você pode acompanhar os desdobramentos e as principais notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.

As instituições que já realizaram operações incluem Banco do Brasil, Banrisul, Caixa Econômica Federal, Sicoob, Sicredi, Ailos, GM Financial, Volkswagen Financial Services, Banco Stellantis e Mobilize Financial Services. Outras ainda estão em processo de implementação. A expectativa é que a entrada de mais agentes financeiros ajude a ampliar a oferta de crédito, mas o desafio da inadimplência permanece.

Perspectivas para o programa

A ampliação do Move para veículos usados representa um avanço na democratização do acesso, mas a baixa taxa de utilização dos recursos sugere que apenas a redução de juros não é suficiente. A combinação de alto endividamento das famílias e critérios rigorosos de crédito impõe limites que nem a injeção de R$ 30 bilhões consegue superar. Para que o programa atinja seus objetivos, serão necessárias medidas complementares, como garantias parciais ou mecanismos de educação financeira para os motoristas.