
Os Estados Unidos produzem mais petróleo do que qualquer outro país. Ainda assim, o governo Donald Trump e autoridades como o secretário de Estado Marco Rubio defendem que refinarias americanas precisam do petróleo venezuelano.
O motivo é técnico — e tem impacto direto no preço e na eficiência do refino: boa parte do petróleo produzido nos EUA é leve e “doce” (light sweet), enquanto muitas refinarias americanas foram projetadas para processar petróleo mais pesado e com maior teor de enxofre (heavy sour), exatamente o tipo que países como Canadá, México e Venezuela exportam.
O problema não é volume, é tipo de petróleo
O boom do xisto (shale) despejou no mercado um grande volume de petróleo vindo de regiões como West Texas e Dakota do Norte. Mas esse petróleo nem sempre é o “insumo ideal” para parte relevante do parque de refino americano.
Refinarias construídas décadas atrás — do Puget Sound (noroeste) até a costa do Texas — foram desenhadas para operar com petróleos mais pesados. Já o petróleo doméstico, em grande parte, é mais leve.
Essa diferença importa porque, em termos industriais, “trocar” o tipo de petróleo não é simples. Refinarias são plantas complexas, com unidades pensadas para um determinado mix de óleo cru — e ajustes estruturais custam caro.
Costa do Golfo concentra as maiores refinarias dos EUA
Segundo a American Fuel & Petrochemical Manufacturers, cerca de 70% da capacidade de refino dos EUA roda com mais eficiência com petróleo mais pesado.
E boa parte dessa infraestrutura está concentrada na Costa do Golfo, onde ficam nove das 10 maiores refinarias do país. É justamente essa região que aparece como um “cluster” no mapa, com forte concentração de unidades no sul dos EUA. (O gráfico destaca o cinturão do Golfo, de Texas a Louisiana, como o centro do refino americano.)

Em entrevista citada pelo jornal Wall Street Journal, Marco Rubio afirmou que as refinarias do Golfo seriam as “melhores do mundo” para esse tipo de petróleo pesado e que existe escassez global dessas cargas, o que aumentaria o interesse da indústria se houver espaço para importar mais.
Por que Venezuela volta ao radar
Nos últimos anos, a produção de petróleo da Venezuela caiu e o pouco que o país produzia foi direcionado principalmente para destinos como Cuba e China.
Ao mesmo tempo, com a redução de embarques vindos de México e Venezuela, refinarias americanas passaram a depender mais do Canadá, que ampliou a oferta de petróleo pesado a partir das areias betuminosas (oil sands).

O resultado é que o Canadá hoje envia mais petróleo aos EUA do que todos os outros fornecedores internacionais somados, de acordo com o WSJ. O gráfico de importações mostra o Canadá dominando o volume ao longo do tempo, enquanto México e Venezuela perdem espaço, e registra que não houve importações reportadas da Venezuela entre julho de 2019 e dezembro de 2022.
EUA exportam petróleo — e ainda importam uma parte grande
Outra aparente contradição: os EUA são grandes exportadores de petróleo, mas ainda assim importam volumes relevantes.
Isso acontece porque refinarias precisam do mix correto de tipos de petróleo para fabricar derivados diferentes — gasolina, diesel, querosene de aviação e asfalto, por exemplo. No total, cerca de 40% do petróleo processado nas refinarias americanas é importado para atingir essa combinação ideal.
Enquanto isso, o excesso do petróleo produzido domesticamente — que não encaixa tão bem nas necessidades de parte do parque de refino — é exportado. Após a retirada da proibição de exportar petróleo bruto (levantada há cerca de uma década), os EUA se tornaram um dos maiores exportadores do mundo, enviando cargas para Índia, China, Coreia do Sul e Europa.
O que isso muda para o mercado de energia
Isso reforça um ponto essencial para o investidor: petróleo não é uma commodity “única” na prática. A diferença entre leve vs. pesado e doce vs. ácido altera logística, spreads de refino e margens de empresas do setor.
Se a Venezuela volta ao radar como potencial fornecedora de petróleo pesado, o impacto pode aparecer principalmente:
- na dinâmica de oferta para refinarias do Golfo;
- nas margens de refino, dependendo de preços relativos e disponibilidade;
- na dependência do Canadá como fornecedor dominante.