O governo brasileiro iniciou um processo de ajuste fino em sua estratégia de retaliação comercial contra os Estados Unidos, após o anúncio de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, que entra em vigor em 22 de julho. A decisão política de aplicar a Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso e sancionada em 2025, já foi tomada, mas os trâmites para sua ativação serão iniciados nos próximos dias, segundo interlocutores do Palácio do Planalto. O objetivo é evitar que as medidas de resposta prejudiquem setores sensíveis da economia nacional, o que foi descrito como um potencial “tiro no pé”.

Estudo cirúrgico dos setores americanos

Diplomatas de alto escalão indicaram que o governo federal analisa minuciosamente os segmentos econômicos dos Estados Unidos antes de definir quais contramedidas serão aplicadas. A intenção é selecionar áreas onde a retaliação cause o menor impacto possível sobre o próprio Brasil. Em levantamento preliminar, já foram identificados setores como o audiovisual e as patentes farmacêuticas como possíveis alvos. O processo de implementação da Lei da Reciprocidade pode ser demorado, e a celeridade dependerá da reação das cadeias produtivas afetadas.

A medida americana foi confirmada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, após uma investigação de um ano. A tarifa de 25% atinge 26,2% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 11 bilhões.

Consultas aos setores prejudicados e plano de apoio

O governo iniciou nesta sexta-feira (17) as consultas formais aos setores impactados pelo tarifaço. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reuniu-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Rosa. Durante a conversa, foi proposta a criação de um grupo de trabalho para discutir uma versão da política industrial Nova Indústria Brasil (NIB) que sirva como alternativa ao novo tarifaço.

Na quinta-feira (16), Alckmin anunciou um programa federal de auxílio às empresas prejudicadas, denominado “Brasil Soberano”, já implementado em 2025 no contexto das primeiras tarifas americanas. Na próxima semana, o governo iniciará rodadas de conversas para ouvir as demandas de cada setor. Você pode acompanhar os desdobramentos e as principais notícias sobre economia em tempo real aqui na SpaceMoney.

Diversificação de mercados como estratégia de longo prazo

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) prepara um programa de diversificação de mercados, com investimento de R$ 130 milhões, a ser lançado no início de agosto. O plano é direcionado principalmente aos setores afetados pelas tarifas americanas e aos beneficiados pelo acordo Mercosul-União Europeia, e será executado em parceria com a iniciativa privada.

Países da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, estão na lista de mercados estratégicos. Além disso, o governo brasileiro negocia com Japão, Canadá e Emirados Árabes para realocar parte da produção que deixará de ser exportada aos Estados Unidos. A expectativa é que essa diversificação reduza a dependência do mercado norte-americano e mitigue os impactos do tarifaço no médio prazo.