Inflação global pressiona crédito no Brasil
Inflação global pressiona crédito no Brasil

A abertura das curvas longas nos mercados desenvolvidos recolocou a inflação no centro das decisões de gestores globais e acendeu um sinal de alerta direto para o crédito das empresas brasileiras. O movimento coordenado ocorre simultaneamente nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão e vai além de um choque pontual de commodities.

De cortes a juros mais altos: a virada de percepção

No início de 2025, o consenso do mercado apontava para um Federal Reserve em modo de corte de juros, com a taxa americana caminhando para 3,6% ao fim do ano. Esse cenário foi descartado. Diante de sinais de inflação persistente, o mercado passou a precificar juros mais altos nos EUA por mais tempo — e gestores avaliam que essa reprecificação ainda pode ser insuficiente.

Bruno Serra, gestor da estratégia Janeiro da Itaú Asset, chegou diretamente de Nova York após quase dez dias de reuniões com fundos estrangeiros durante a Brazil Week. ‘Passei quase dez dias lá falando com fundo gringo. O tema principal era essa história da inflação. Era o que mais estava incomodando a turma e me pareceu ser o principal ponto que estava gerando tomada de decisão na ponta’, afirmou Serra.

IA como motor inflacionário estrutural

Para Andrew Reider, da WHG Asset, o ciclo de investimentos em inteligência artificial é o vetor central da pressão inflacionária. A demanda por insumos críticos — especialmente chips de memória — está em expansão acelerada, enquanto a oferta permanece restrita.

O segmento de computadores e eletrônicos, historicamente deflacionário, registrou alta superior a 100% nos preços de memória em algumas métricas. O impacto se propaga desde smartphones e computadores até baterias para veículos elétricos.

ETF de memória capta US$ 10 bilhões em um mês

Reider destacou o ETF DRAM, da gestora Roundhill, como termômetro desse gargalo. O fundo, lançado há pouco mais de um mês com oito a dez ações — majoritariamente fabricantes de chips como Samsung, SK Hynix e Micron —, captou US$ 10 bilhões em seu primeiro mês. ‘A receita que ele gera é maior que qualquer asset no Brasil, em um mês’, disse Reider.

Na leitura do gestor, o ciclo de IA ainda está em fase de construção de infraestrutura básica, comparável historicamente aos ciclos das ferrovias, da eletrificação e da fibra óptica. ‘A gente está muito no começo. O problema não é a demanda, que é quase infinita. O problema é a oferta’, afirmou.

Impacto direto no crédito corporativo brasileiro

O ambiente de juros longos pressionados no exterior eleva o custo de captação para empresas brasileiras com dívida indexada a taxas externas ou com necessidade de rolagem em condições mais duras. Christian Keleti, da Alpha Key, participou da análise ao lado de Serra e Reider no programa AfterMarket, do Stock Pickers.

Para quem acompanha investimentos no mercado local, o cenário exige atenção redobrada ao perfil de endividamento das companhias listadas, especialmente aquelas com maior alavancagem e vencimentos concentrados no curto prazo. A combinação de curvas longas abertas globalmente e Selic elevada internamente comprime margens e aumenta o estresse financeiro do setor corporativo.