Milhares de candidatos a cargos públicos em Jharkhand, no leste da Índia, enfrentaram a polícia nesta segunda-feira (11/08) ao tentar romper as barreiras de segurança em direção à Assembleia Legislativa estadual. O confronto com canhões de água marcou uma escalada das tensões em um movimento que já dura mais de duas semanas e cobra a anulação de provas e uma investigação federal sobre supostas irregularidades nos concursos estaduais.

Os protestos começaram em 25 de julho, quando manifestantes ocuparam o Estádio Jaipal Singh Munda, em Ranchi, capital do estado. A mobilização reúne candidatos, entidades estudantis e organizações locais, em um contexto de desconfiança generalizada nos processos seletivos públicos do país.

O estopim das manifestações

O estopim foi o mais recente exame para o serviço civil da Comissão de Serviço Público de Jharkhand (JPSC), que oferecia apenas 103 vagas no governo estadual. Mais de 2 mil candidatos foram aprovados para a etapa seguinte quando os resultados foram divulgados no início de julho. Pouco depois, começou a circular nas redes sociais a imagem da folha de respostas de um candidato aprovado que teria deixado grande parte da prova em branco, o que levantou suspeitas de fraude.

A polícia prendeu o candidato envolvido na controvérsia e outras dez pessoas, e o presidente da comissão renunciou sob pressão. Para os manifestantes, no entanto, as medidas não enfrentam o que classificam como um problema estrutural de todo o sistema de recrutamento.

As reivindicações dos manifestantes

Os manifestantes querem que os resultados do exame sejam anulados e que a prova seja reaplicada. Também exigem uma investigação independente, conduzida por juízes aposentados de tribunais superiores de outros estados ou por autoridades federais, e rejeitam a hipótese de que a polícia estadual apure acusações que envolvem o próprio processo de contratação de Jharkhand. Entre os pedidos está ainda o cancelamento do JSSC-CGL, um dos principais concursos para servidores estaduais, e a realização de uma investigação criminal pelo Departamento Central de Investigações (CBI), principal agência federal de investigação da Índia.

Ao menos seis participantes iniciaram greve de fome. Um deles, Rahul Kranti, de 40 anos, candidato a cargo público, foi transferido para a unidade de terapia intensiva após o estado de saúde se deteriorar. “O futuro da juventude de Jharkhand não será vendido. Vou permanecer em greve de fome, esteja eu no hospital ou no local do protesto”, disse. Outro grevista, Devendra Nath Mahto, está em jejum há nove dias e já perdeu mais de 10 quilos.

A Jharkhand Chhatra Sangh (JCS), importante organização estudantil, também defende maior transparência na divulgação das folhas de respostas e dos resultados, verificação biométrica dos candidatos, mecanismos mais rigorosos contra vazamentos de provas e responsabilização de autoridades e agências privadas terceirizadas. O presidente nacional da entidade, S Ali, afirmou que o governo precisa reformar completamente o sistema de recrutamento da JPSC e da JSSC, investigar os responsáveis, colocar na lista negra as agências envolvidas em irregularidades e tornar os futuros exames transparentes e à prova de fraudes.

Inspiração no movimento de Déli

A mobilização começou poucos dias depois de o movimento estudantil satírico Cockroach Janta Party (CJP), ou Partido do Povo das Baratas, encerrar uma mobilização de 36 dias em Nova Déli contra o vazamento de provas do exame nacional de ingresso em cursos de medicina. O protesto reuniu jovens em greves de fome e acampamentos diante do observatório histórico de Jantar Mantar e culminou com a renúncia do ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan. O fundador do CJP, Abhijeet Dipke, anunciou planos de viajar para Jharkhand, e uma delegação do grupo já chegou a Ranchi para apoiar o movimento.

Mas a crise em Jharkhand tem raízes locais. Os protestos são liderados pelo Fórum de Reformas JPSC-JSSC, com a Frente Revolucionária Democrática de Jharkhand, e contam com adesão de entidades como a All-India Students Association (AISA) e a All India Students’ Federation (AISF). A presidente da AISA, Neha Bora, visitou os manifestantes em Ranchi e afirmou que os protestos simbolizam a quebra de confiança dos jovens em relação ao sistema. “Seja em Jantar Mantar ou em Ranchi, esses protestos simbolizam a quebra de confiança que os jovens sentem em relação ao sistema. Eles exigem ser ouvidos, mas também estão pedindo mudanças que possam evitar crises semelhantes no futuro.”

A analista política Radhika Ramaseshan afirmou que os estudantes se inspiraram nos protestos de Déli, mas também recorrem a uma longa tradição de lutas populares de Jharkhand relacionadas a terra, identidade e direitos políticos. “A diferença é que o alvo dos manifestantes é o governo de coalizão em Ranchi, que, assim como o governo federal, demorou a reagir.”

O que já foi conquistado e os próximos passos

Após horas de negociações no domingo, o governo concordou em suspender o exame contestado da JPSC deste ano, e três membros da comissão renunciaram. Os manifestantes, porém, consideram as concessões insuficientes e mantêm as exigências de cancelamento do JSSC-CGL e de investigação federal sobre todo o sistema de recrutamento.

O ministro-chefe Hemant Soren disse estar aberto ao diálogo e afirmou que “a solução para todos os problemas está no diálogo, e não em cassetetes e armas”. Ele garantiu que os responsáveis por supostas irregularidades serão severamente punidos. As autoridades, por outro lado, restringiram protestos em um raio de 750 metros da Assembleia Legislativa até 12 de agosto.

Os protestos em Déli mostraram que um movimento estudantil organizado nas redes sociais e impulsionado pela indignação com suspeitas de fraude em exames pode pressionar autoridades e levar a mudanças concretas. Em Jharkhand, a pressão já resultou em uma primeira vitória, mas a insatisfação segue viva e o movimento promete continuar até que todas as exigências sejam atendidas.