segunda, 29 de novembro de 2021
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Dia do Professor: Aos mestres, pais e alunos, a importância da educação financeira

Trazer o dinheiro e o planejamento pessoal para o centro das discussões entre as famílias e nas escolas gera uma consciência coletiva sobre responsabilidade e segurança financeira

15 outubro 2021 - 11h26Por Lucas de Andrade

Hoje, 15 de outubro, celebramos o Dia do Professor. Essa data marca o aniversário da Lei Imperial de 1827, que estabeleceu o ensino fundamental no território brasileiro. A partir de 1940, esse dia passou a ser comemorado em alguns estados e se tornou uma data nacional e um feriado escolar 22 anos depois.

Essa profissão que tanto inspira as pessoas desde a infância, e que também impacta as relações entre pais e filhos, ainda não recebe a devida valorização no Brasil, seja pela remuneração ou pelas condições de trabalho como em estrutura, apoios psicológico, pedagógico e tecnológico, entre outros.

Remuneração

A Lei 11.738/2008 institui o piso salarial nacional para os profissionais do magistério público da educação básica em R$ 2.886. Segundo dados da plataforma Catho, os professores do 1º ao 9º ano do ensino fundamental ganham, em média, R$ 2.941,3 e R$ 3.035,21.

De acordo com informações da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), o valor do piso pode ser de R$ 3.236,05, a partir de 1º de janeiro de 2022.

Em 2021, entretanto, o reajuste foi anulado por uma manobra do governo federal em razão do corte de verbas do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), que impactou o valor mínimo nacional por aluno/ano (VAAF) e, por consequência, a remuneração dos educadores.

Quando as aulas também transformam quem ensina

Viver com o desafio de equilibrar as contas pessoais enquanto se dividem em duas ou mais jornadas de trabalho faz parte do cotidiano de vários professores do Brasil.

O que curiosamente ajudou a educadora Ana Paula Pereira, 38, foi lecionar disciplinas e projetos extracurriculares que falavam sobre a importância da educação financeira e do empreendedorismo para alunos de 6 a 14 anos.

“Eu estudava sobre os temas para abordá-los em algum evento extraclasse ou dentro de sala de aula mesmo e me via em certas situações. Relembrei os golpes que minha família sofreu, o escândalo do confisco nos anos 1990, algumas dívidas que eu comecei a prestar mais atenção… Tudo isso foi muito importante”, relata.

Hoje, a educadora está afastada de suas atividades por problemas de saúde, mas ela relembra como uma metodologia voltada à orientação profissional e ao empreendedorismo chegou ao seu local de trabalho e impactou a vida de todos.

“Há uns 10 anos, a rede [particular de ensino] havia importado um método que se tornou muito importante para os alunos, mas também para nós professores. Independentemente das matérias que dávamos, todos os profissionais precisavam estar inteirados desse conceito para que os alunos se sentissem confortáveis em procurar a qualquer um de nós a qualquer momento”, diz.

Licenciada em Letras, com ênfase na Literatura Brasileira, Ana Paula começou a perceber como assuntos que envolviam o planejamento financeiro e a economia eram pouco compreendidos pelos alunos.

“Uma vez passei uma atividade em que os alunos deveriam assistir um telejornal, fazer uma redação e também discutir sobre o conteúdo do que viram em sala de aula. E era engraçado como eles assimilavam as coberturas sobre violência, sobre saúde, até discussões políticas alguns conseguiram entender, mas ninguém soube falar bem sobre o bloco de notícias econômicas porque havia muitos números, cálculos. Era necessário mudar isso”, relata.

Com as disciplinas e projetos extracurriculares que ajudou a implementar, a educadora conta que houve uma grande transformação na relação entre pais e filhos com o dinheiro. 

“Nós passamos a falar sobre consumismo, sobre cartões de crédito, cheque especial, juros. Tudo que nós tínhamos para preparar o aluno financeiramente. E isso repercutia entre os pais. Havia histórias de alunos que passaram a auxiliar os pais na hora de controlar os gastos.”

Segundo a educadora, o método foi um primeiro passo para que os alunos se conhecessem, vissem o quanto estavam dispostos a gastar e a poupar e que até mesmo passassem a pensar em futuras carreiras. 

“Não foi algo por acaso. A gente, em algum momento, achou que isso ajuda a traçar o perfil profissional. Com um certo nível de autoconhecimento, mesmo tão novinhos, eles começam a ver o que no futuro cada um julga mais apropriado para si”, finaliza. 

Planeje-se independentemente de idade, profissão ou condição

O exemplo dado pela professora ganha o apoio de Kalinin Filho, assessor de investimentos da Blue3. Ele afirma que a abordagem da educação financeira tende a impactar positivamente todos os envolvidos, até quem leciona, e deseja ver mais educadores com os olhos voltados para suas próprias finanças.

“Hoje, na minha carteira de investimentos, acho que não tenho um professor. Tenho médicos, advogados, profissionais liberais, mas não um professor. Porém, acho que quanto mais for disctuido o tema nas escolas, mais educadores vão se sentir preparados também. Nós sabemos que a maioria, infelizmente, ganha mal”, diz.

Kalinin celebra iniciativas como a parceria entre o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que, junto ao MEC (Ministério da Educação), vão levar o tema da educação financeira para mais alunos em todo o Brasil, mas sugere a ampliação do público alcançado. 

“O impacto disso a gente vê no longo prazo e eu vejo todo esse movimento com bons olhos, mas seria melhor que o programa envolvesse também as famílias. Para não se resolver um problema do futuro, de uma próxima geração, mas também do presente. Acho importante integrar os pais nesse processo de aprendizado”, afirma.

O assessor conta que, ao longo de sua trajetória, ficou mais fácil perceber quando clientes já traziam consigo alguma noção de planejamento financeiro e o contrário.

“Nós temos a função de ajudar as pessoas a investirem melhor, se o dinheiro está aplicado em produtos que façam sentido para seus objetivos. Nós olhamos de acordo com o perfil o limite para sugerir a alocação de recursos. Mas há quem consegue lidar bem com a organização já no primeiro contato, alguns têm uma sobra no final do mês e outros ainda estão totalmente desorganizados”, diz.

Kalinin afirma que os clientes que já tem uma certa consciência de planejamento financeiro têm até mais jogo de cintura para resolver pendências. “Geralmente, essas pessoas tinham pais que falavam abertamente sobre isso e sabem negociar, recorrer a quem for preciso para ajustar as contas básicas. Vira e mexe, há um endividamento, mas elas têm mais ou menos a noção de como solucionar sem se enrolar tanto”, afirma.

Segundo o assessor, a cultura brasileira põe as pessoas a aprenderem “mais pela dor que pelo amor”. “A maioria espera entrar em uma situação adversa para então pensar em uma solução, quando, com educação financeira, já poderia ter se preparado para imprevistos”. 

Outro ponto destacado pelo assessor foi a abordagem do tema com os pequenos. Kalinin acredita que trazer a educação financeira como disciplina traz um foco maior de importância para os alunos, mas acredita que a matéria não deve ser “engessada” ou muito teórica e sugere o caminho da interdisciplinaridade. 

“Pode ser que alguns estudantes tenham dificuldade de assimilar o assunto no dia a dia. Seria legal, por exemplo, ter uma aula de geografia e daí o professor falar sobre a América do Norte, mas também destacar a moeda local, a relação de câmbio e outras características”, aponta.

“Tem também como mostrar como funcionam as questões de compras”, prossegue. “Lá, por exemplo, você vê o preço da etiqueta, aquele valor está livre de impostos. Mas somente na hora que você passa o produto no caixa incorre sobre ele um acréscimo de imposto. São demonstrações importantes que estimulam a curiosidade”, completa.

Para Kalinin, um grande efeito positivo que a educação financeira desde a infância tende a gerar está relacionado ao fato da criança ou do adolescente ter contato com um dinheiro dos pais e não próprio.

“Isso faz com que o indivíduo veja o valor das coisas antes dele mesmo ter a própria renda. Às vezes pode ser a mesada, o dinheiro do lanche ou da passagem. Ele passa a ver que sem aquilo não tem como ter o que quer. Quando for a hora de chegar no mercado de trabalho, vai haver muito mais maturidade”, diz.

Essa preocupação, segundo Kalinin, tem sido crescente entre os pais que assessora, mas deve ser melhor trabalhada. 

“Muitas vezes eles abrem conta em nome dos filhos, investem regularmente até que eles atinjam a maioridade, mas precisam se preocupar também em como preparar seus sucessores para lidar com aquele dinheiro”, diz. “Do contrário, seria como pegar uma Ferrari e entregá-la a uma pessoa que não tem habitação”.

Ele acredita que o envolvimento dos pais com a vida financeira dos filhos menores deve ser mais intenso.

“Talvez, em vez de deixar uma grande previdência para o filho, fosse mais útil gerir uma conta conjunta com ele. Depositar os valores mensalmente, ver em que vale a pena investir, adicionar produtos de renda fixa e de renda variável juntos. Assim eles passam também a se conhecer melhor”, afirma.

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