
A inflação voltou a se firmar como o maior problema da economia dos Estados Unidos e escancarou a dificuldade do Federal Reserve em cumprir sua principal missão: manter os preços sob controle. Quase cinco anos após a última vez em que o índice ficou abaixo da meta de 2%, o banco central ainda não conseguiu “prender” o avanço do custo de vida.
A distância temporal ajuda a dimensionar o problema: quando a inflação estava abaixo de 2%, em 2021, Tom Brady ainda era o MVP do Super Bowl. Desde então, os preços subiram, os juros dispararam e o Fed segue sem uma vitória clara.
Cinco anos longe da meta de inflação
Autoridades do Federal Reserve se reúnem esta semana em Washington sob um marco incômodo: está prestes a completar cinco anos desde a última vez que a inflação americana ficou abaixo do objetivo oficial de 2%.
Economistas avaliam que não se trata apenas de um desvio temporário. A persistência do índice acima da meta passou a ameaçar a credibilidade do banco central e a confiança do mercado em sua capacidade de controlar o ciclo de preços.
A herança inflacionária da pandemia
O surto inflacionário atual tem origem direta nas medidas adotadas durante a pandemia. Trilhões de dólares foram injetados na economia para evitar uma recessão profunda, enquanto os juros foram reduzidos a praticamente zero.
Com mais dinheiro circulando e cadeias produtivas ainda desorganizadas, o resultado foi previsível: demanda forte, oferta limitada e preços disparando. Em 2022, a inflação atingiu o maior nível em cerca de 40 anos, forçando o Fed a reagir com aumentos agressivos dos juros.
Juros altos, mas efeito limitado
Apesar do aperto monetário, o controle da inflação se mostrou mais lento do que o esperado. Economistas destacam que os juros são uma ferramenta “bruta”: funcionam, mas com atraso e impacto desigual sobre a economia.
Além disso, fatores fora do alcance direto do Fed seguem pressionando os preços, como custos de energia, tensões geopolíticas e gargalos no comércio internacional.
Tarifas e custos estruturais reacendem alerta
Novos elementos voltaram a colocar pressão sobre a inflação. Tarifas comerciais, aumento nos custos de mão de obra e serviços essenciais — como saúde, transporte e seguros — impediram uma desaceleração mais consistente.
Empresas também costumam reajustar preços no início do ano, o chamado “efeito janeiro”, o que pode provocar uma nova rodada de alta no começo de 2026, segundo analistas de Wall Street.
Fed deve manter juros elevados por mais tempo
Diante desse cenário, o consenso do mercado é que o Federal Reserve manterá os juros elevados por mais tempo do que se imaginava meses atrás. Cortes só devem ocorrer quando houver sinais claros e sustentáveis de desaceleração da inflação.
Projeções indicam que o índice deve encerrar 2025 próximo de 3%, ainda acima do nível considerado confortável pela autoridade monetária.
Alívio não significa preços mais baixos
Mesmo que a inflação desacelere, especialistas reforçam que isso não significa queda nos preços, mas apenas um ritmo menor de aumento. Para os consumidores, o impacto segue pesado.
Produtos básicos, aluguel, energia e serviços continuam significativamente mais caros do que antes da pandemia, corroendo o poder de compra das famílias e ampliando a insatisfação com a economia.
Um problema além do alcance do Fed
O desafio do banco central vai além da política monetária. Choques externos, mudanças estruturais no mercado de trabalho e custos persistentes em setores-chave sugerem que a inflação pode permanecer estruturalmente mais alta do que no passado recente.
Para economistas, o risco é que o Fed tenha de conviver por mais tempo com um cenário de inflação acima da meta — sem garantias de uma vitória rápida.