Indústria acelera migração para o crédito privado em 2026 como resposta aos juros elevados

O crédito segue como um dos principais pontos de pressão sobre a indústria brasileira, não apenas pelo custo elevado, mas pela retração efetiva da demanda por financiamento. Pesquisa recente indica que 80% dos empresários que tiveram dificuldade para acessar crédito de curto ou médio prazo apontam os juros elevados como o maior entrave, seguidos pela exigência de garantias reais, citada por 32%, e pela falta de linhas adequadas às necessidades das empresas, mencionada por 17%.

No crédito de longo prazo, acima de 5 anos, o padrão se repete, com 71% dos industriais apontando os juros como principal obstáculo, enquanto 31% citam a exigência de garantias e 17% a ausência de produtos compatíveis. O impacto desse ambiente aparece no comportamento das empresas: 54% não buscaram contratar ou renovar crédito no ano passado, enquanto 49% também deixaram de procurar crédito de curto ou médio prazo no mesmo período. Apenas 26% conseguiram contratar ou renovar crédito de curto prazo, percentual que cai para 17% quando se trata de crédito de longo prazo, evidenciando um mercado mais seletivo, cauteloso e restritivo para o financiamento industrial.

Empresários buscam solução fora dos bancos


Segundo Volnei Eyng, CEO da Multiplike, os juros seguem como o principal desafio porque, em um ambiente de política monetária ainda restritiva, o custo do dinheiro fica elevado para toda a economia. Além de reduzir o consumo, isso afeta diretamente a capacidade das empresas de financiar capital de giro, investimentos ou reorganização financeira.

“É uma condição macroeconômica que as instituições que concedem crédito têm pouco controle. Quando o custo básico da economia está alto, todos os agentes acabam operando sob maior cautela, e isso se reflete nos spreads, nas exigências de garantias e na seletividade das análises. Os juros não são apenas um número, mas um elemento que pressiona risco, liquidez e tomada de decisão ao longo de toda a cadeia de crédito”, afirma.

Crédito estruturado é alternativa

Na prática, o ambiente de juros elevados tem mudado de forma estrutural o comportamento das empresas na busca por financiamento. A decisão deixou de se concentrar apenas na taxa nominal e passou a considerar o custo total da operação, incluindo prazos, carência, flexibilidade contratual e impacto no fluxo de caixa.

Esse movimento tem ampliado o interesse por alternativas fora do sistema bancário tradicional, em especial modelos de crédito estruturado e soluções com maior aderência ao perfil operacional das empresas. Nesse contexto, a Multiplike projeta liberar mais de R$ 20 bilhões em crédito em 2026, apoiada pelo avanço do processo para se tornar uma Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento, estrutura que tende a alterar sua capacidade de captação e ampliar o acesso das empresas industriais a linhas mais flexíveis e diversificadas.

Diversificar alternativas

De acordo com Priscila de Freitas, diretora de crédito na Multiplike, esse cenário exige uma postura mais técnica e estratégica por parte das indústrias. “Quando o ambiente de juros está mais alto e a oferta de crédito se torna mais seletiva, alguns caminhos ajudam a acessar condições mais adequadas. O primeiro é fortalecer a apresentação das informações financeiras, com dados claros, consistentes e atualizados. Quanto maior a transparência, melhor a leitura de risco e maior a chance de aprovação em condições mais equilibradas.

O segundo é diversificar as alternativas. Além dos bancos tradicionais, existem operações lastreadas em recebíveis ou em garantias híbridas, que se ajustam melhor ao perfil de cada empresa. Em um cenário desafiador como o atual, a recomendação não é buscar crédito a qualquer custo ou com urgência, porque isso encarece a operação e leva a decisões menos eficientes”, conclui. Para ela, operações bem estruturadas, alinhadas ao momento econômico e ao perfil do negócio, são fundamentais para que a indústria retome investimentos com previsibilidade e sustentabilidade.