
Os mercados globais seguem em forte movimento de alta no início de 2026, impulsionados por um fator que tem se mostrado dominante: fluxo de capital. Bolsas na América Latina, Europa e Estados Unidos caminham próximas ou já em máximas históricas, em um ambiente marcado por rotação de portfólios, enfraquecimento relativo do dólar e busca por retorno fora dos Estados Unidos .
A leitura predominante entre estrategistas é clara: no curto prazo, não são os fundamentos que fazem preço, mas sim o movimento coordenado de alocação global.
Rotação global impulsiona emergentes e América Latina
Dados recentes mostram uma sequência de 12 semanas consecutivas de entrada de recursos em ETFs de mercados emergentes, com aproximadamente US$ 4 bilhões apenas na semana encerrada em 9 de janeiro. Esse movimento tem efeito amplificado em regiões de menor profundidade de mercado, como América Latina, onde pequenos ajustes de alocação global geram grandes impactos nos preços dos ativos .
As moedas latino-americanas figuram entre as mais fortes do mundo em 2026, enquanto bolsas da região lideram os rankings globais de desempenho. O Brasil aparece como um dos principais beneficiados desse fluxo.
Brasil atrai capital apesar do risco fiscal
O mercado brasileiro tem registrado entrada líquida relevante de investidores estrangeiros, com destaque para aportes concentrados em poucos pregões, evidenciando o peso do fluxo na formação de preços. O principal vetor por trás desse movimento é o diferencial de juros, com a taxa básica ainda próxima de 15% ao ano, tornando o país altamente atrativo em estratégias de carrego .
Apesar disso, o cenário estrutural segue desafiador. O debate fiscal permanece no centro das atenções, com preocupação crescente sobre a trajetória da dívida pública e o custo de financiamento de longo prazo do Tesouro Nacional.
Juros reais elevados viram novo normal
Mesmo com desaceleração parcial da inflação, a dinâmica de consumo e estímulo fiscal mantém a economia aquecida. Indicadores mostram que segmentos sensíveis à demanda, especialmente serviços, continuam rodando acima da meta inflacionária, o que dificulta cortes mais agressivos de juros.
Nesse contexto, juros reais elevados deixam de ser exceção e passam a ser tratados como novo patamar estrutural, pressionando o custo da dívida e distorcendo preços de ativos de renda fixa .
Bolsas globais em máximas históricas
O movimento de alta não se restringe aos emergentes. Nos Estados Unidos, os principais índices seguem próximos de marcas simbólicas:
- S&P 500 se aproxima dos 7.000 pontos
- Dow Jones caminha em direção aos 50.000 pontos
- Small caps americanas superam o desempenho do S&P 500 por vários dias consecutivos
Esse comportamento reforça a tese de rotação interna nos EUA, com investidores buscando ativos mais sensíveis ao ciclo econômico e menos concentrados nas grandes empresas de tecnologia .
Commodities sob influência direta do fluxo
O mercado de commodities metálicas vive um momento de forte distorção entre preços e fundamentos. Ouro, prata, cobre e alumínio operam em níveis historicamente elevados, em um movimento amplamente atribuído a posições alavancadas e estratégias quantitativas baseadas em tendência.
A reação da China — incluindo restrições operacionais a participantes de alta frequência — reforça a leitura de que parte relevante da alta recente está ligada ao fluxo especulativo, e não a fundamentos clássicos de oferta e demanda .
Dólar forte desafia a narrativa dominante
Um ponto de atenção no cenário atual é o comportamento do dólar global. Mesmo com rotação para emergentes e maior apetite ao risco, o DXY acumula semanas de alta, criando uma aparente incoerência no ambiente macro.
Esse movimento sugere que o mercado ainda precifica riscos estruturais relevantes, especialmente ligados a política monetária americana, fiscal global e tensões geopolíticas.
Risco de repressão financeira entra no radar
No debate fiscal brasileiro, ganha espaço uma preocupação mais estrutural: a possibilidade de repressão financeira como alternativa à disciplina fiscal. O conceito envolve medidas heterodoxas, como direcionamento compulsório de poupança doméstica para financiamento do Estado ou restrições à conta de capital.
Embora ainda tratado como cenário de cauda, o simples surgimento dessa narrativa já é suficiente para impactar expectativas de longo prazo e influenciar a precificação dos títulos públicos .
O início de 2026 consolida um cenário em que fluxo é o principal motor dos mercados. Bolsas sobem, moedas emergentes se fortalecem e o Brasil atrai capital mesmo diante de desafios fiscais relevantes.
No curto prazo, a tendência permanece construtiva. No médio e longo prazo, porém, o equilíbrio entre fluxo, fiscal e política monetária será determinante para sustentar — ou não — os níveis atuais de preço.