
Gestores de recursos começam a demonstrar preocupação crescente com a possibilidade de a inflação nos Estados Unidos acelerar mais do que o esperado em 2026, mesmo com os mercados ainda operando próximos de máximas históricas.
O alerta vem da combinação de alta expressiva dos preços de metais, incertezas geopolíticas, pressões vindas do setor de inteligência artificial e dúvidas sobre a independência do Federal Reserve diante da expectativa de uma mudança no comando do banco central a partir de maio.
Apesar do aumento das preocupações nos bastidores, esses riscos ainda não estão totalmente refletidos nos preços dos ativos.
Metais disparam e pressionam custos
Um dos principais focos de atenção é o avanço acelerado das commodities metálicas. O ouro acumula alta de 6,7% no ano, enquanto a prata sobe 31%, após já terem registrado ganhos de 64% e 141% em 2025, respectivamente.
A valorização se espalhou para metais industriais como o cobre, insumo essencial para construção civil, automóveis e infraestrutura ligada a data centers. Analistas apontam que esse movimento cria um piso para preços ao consumidor, dificultando o controle inflacionário.
Para gestores de portfólio, o encarecimento desses insumos aumenta o risco de repasses ao longo da cadeia produtiva.
Fed e incerteza sobre independência do banco central
Outro fator que preocupa o mercado é a expectativa em torno da escolha do próximo presidente do Federal Reserve, com o fim do mandato de Jerome Powell previsto para maio.
Declarações recentes do presidente Donald Trump, defendendo um nome “favorável a cortes mais agressivos de juros”, levantaram dúvidas sobre o grau de independência do Fed no futuro. Autoridades monetárias alertam que interferências políticas podem comprometer o controle da inflação.
Com a inflação ainda acima da meta de 2% ao ano, qualquer sinal de enfraquecimento da autonomia do banco central tende a elevar prêmios de risco.
Geopolítica e energia entram no radar
Gestores também passaram a considerar novos riscos geopolíticos no cenário inflacionário. Tensões envolvendo Irã e desdobramentos recentes na Venezuela ampliam a incerteza sobre energia e cadeias globais de suprimento.
Estimativas indicam que, se esses riscos se materializarem, a inflação cheia e o núcleo do índice de preços ao consumidor podem se aproximar de 3% ao longo de 2026, acima do nível registrado em dezembro, quando o CPI anual foi de 2,7%, com núcleo em 2,6%.
Mercado ainda não precifica totalmente o risco
Apesar das preocupações, os mercados seguem relativamente calmos. O Treasury de 10 anos operava em torno de 4,16%, dentro da faixa observada desde agosto, enquanto investidores ainda apostam em dois cortes de juros em 2026.
Derivativos de inflação indicam expectativa de pico do CPI em 2,8% em maio, seguido de desaceleração até o fim do ano. Ao mesmo tempo, o Dow Jones e o S&P 500 fecharam próximos de recordes, impulsionados por ações ligadas à inteligência artificial e bancos.
Analistas alertam, porém, que uma quebra rápida do rendimento dos Treasuries para acima de 4,3% poderia sinalizar uma mudança brusca de percepção no mercado.
Inteligência artificial pode manter pressão inflacionária
O avanço acelerado da infraestrutura de IA também entra na equação. A construção de data centers elevou a demanda por cobre e energia, pressionando custos de eletricidade e insumos industriais.
Especialistas afirmam que o impacto da IA sobre a inflação vai além da energia, afetando materiais, salários e investimentos em larga escala. Embora não seja consenso que isso gere uma espiral inflacionária, o risco de surpresas positivas nos preços passou a ser monitorado mais de perto.