Fábio Murad analisa o cenário de ETFs em 2026 e os riscos de complacência do mercado
Fábio Murad analisa o início de 2026 e os riscos de complacência do mercado, com ETFs no centro da estratégia.

Panorama macroeconômico e perspectivas para 2026

Estados Unidos: crescimento com produtividade

O cenário macroeconômico global para 2026 começa com os Estados Unidos apresentando uma resiliência econômica notável. Um dos dados mais relevantes do início do ano foi o crescimento expressivo da produtividade da mão de obra americana, que alcançou o maior ritmo dos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, observou-se uma queda no custo unitário da mão de obra, o que oferece um alívio importante para as margens corporativas e sugere um ciclo econômico sustentável. Esse ganho de produtividade ajuda a manter a inflação sob controle, mesmo com um mercado de trabalho apertado, e dá espaço para o Federal Reserve manter a política monetária mais flexível ao longo do ano.

Ao contrário do que se esperava anteriormente, os recentes dados de mercado de trabalho e balança comercial reforçam que não há sinais imediatos de recessão. Embora alguns setores enfrentem reprecificação de ativos e rotação de portfólios, a economia americana ainda se mostra em expansão, mesmo que moderada. Isso cria um ambiente construtivo para exposição a ativos dos EUA, especialmente em setores mais defensivos e ligados à economia real, como infraestrutura e energia, sem perder de vista as oportunidades em tecnologia, desde que selecionadas criteriosamente.

A mensagem que fica é que os Estados Unidos continuam sendo uma das principais âncoras para uma estratégia global de investimentos. Para quem constrói um portfólio via ETFs, o momento favorece uma diversificação tática que inclua exposição ao mercado americano, priorizando setores de qualidade, boas margens operacionais e que se beneficiem desse novo ciclo de produtividade e desaceleração do custo de capital.


Brasil: riscos fiscais e oportunidades seletivas

No cenário doméstico, o Brasil entra em 2026 carregando uma percepção mista por parte dos investidores. Por um lado, o país continua oferecendo uma das maiores taxas reais de juros do mundo, o que atrai fluxo para estratégias de renda fixa e estratégias de carry trade. Por outro lado, o risco fiscal continua sendo um ponto de alerta — especialmente após a recente emissão de títulos públicos de longo prazo com juros acima de 13,7% ao ano. A sinalização é clara: o mercado exige prêmio para financiar o governo, refletindo uma confiança ainda limitada na trajetória fiscal.

Mesmo assim, não se pode ignorar o bom desempenho de ativos locais no curto prazo. A Bolsa brasileira, apesar da alta de 2025, ainda opera com múltiplos atrativos em vários setores. O investidor estrangeiro segue seletivo, mas atento a oportunidades de valor em ações e setores ligados ao consumo interno, commodities e dividendos. Nesse contexto, a alocação via ETFs brasileiros continua sendo relevante, mas precisa ser equilibrada com ativos internacionais para mitigar riscos específicos do país.

A conclusão, aqui, é que Brasil não pode ser ignorado, mas também não pode ser superponderado. O investidor que decide se posicionar no mercado local via ETFs precisa ser seletivo, optar por estratégias que se beneficiem do juro real alto e da possível retomada setorial, mas sempre com uma postura tática e margem de manobra para ajustes rápidos.


China e emergentes: uma nova fase de alocação

No radar de 2026 também estão os mercados emergentes — com destaque para a China, que embora ainda enfrente desafios estruturais, voltou a atrair atenção após uma série de estímulos localizados e reprecificação de ativos. O sentimento em relação ao país vem se ajustando com mais racionalidade. Ao invés de apostas agressivas, o investidor institucional busca alocação indireta em empresas chinesas com governança sólida e exposição global, além de ETFs que filtram os riscos específicos do ambiente regulatório.

A tendência é que os emergentes passem a ser reavaliados com mais nuance, especialmente em um mundo com possível estabilização dos juros globais. A performance relativa de moedas e bolsas de países como México, Índia, Indonésia e mesmo alguns mercados da América Latina pode ser interessante, especialmente se o dólar mantiver sua trajetória de estabilidade ou leve desvalorização. Nesse contexto, ETFs de mercados emergentes diversificados (como BEEM39) voltam ao radar como ferramentas importantes de alocação estratégica.

Para investidores brasileiros, expostos naturalmente ao risco Brasil, a alocação em emergentes via BDRs de ETFs internacionais é um passo importante rumo à diversificação geográfica. A China pode continuar sendo um vetor de volatilidade, mas também de retorno. O ponto chave é ponderar o peso de cada região no portfólio, com base em fundamentos econômicos, política monetária e cenário global de liquidez.

Estratégia central para alocação com ETFs

Diversificação inteligente com foco no cenário macro

A construção de um portfólio de ETFs bem estruturado para 2026 passa obrigatoriamente por uma leitura estratégica do cenário macroeconômico global e local. Não se trata apenas de selecionar os ETFs que estão em tendência de alta no curto prazo, mas de entender se essas tendências fazem sentido no contexto econômico atual. Dada a elevada incerteza fiscal no Brasil e a performance ainda sólida da economia americana, uma abordagem diversificada, mas com critério geográfico, torna-se essencial.

Nesse momento, a estratégia se concentra em reduzir a concentração excessiva no mercado brasileiro, que, apesar de apresentar múltiplos atrativos, ainda carrega riscos relevantes. A carteira deve incluir ETFs globais que ofereçam exposição aos Estados Unidos, mercados emergentes diversificados, China e setores globais como tecnologia, metais e energia. Essa composição permite capturar diferentes vetores de crescimento, suavizando os riscos políticos e econômicos de qualquer país específico.

O investidor que se limita ao mercado local está exposto não apenas ao risco fiscal, mas também à volatilidade política e cambial. A diversificação via ETFs internacionais, especialmente aqueles listados como BDRs no Brasil, oferece um caminho eficiente, acessível e alinhado às melhores práticas de gestão de portfólio.


Critérios para seleção de ETFs

A escolha dos ETFs que compõem a carteira deve seguir critérios objetivos, que combinem análise técnica com avaliação de fundamentos macroeconômicos. Um dos pilares centrais é que o ETF esteja em clara tendência de alta, validada por padrões técnicos consistentes, como médias móveis ascendentes e volume de negociação crescente. Isso garante que o ativo está em momento favorável do ponto de vista de fluxo e percepção de mercado.

Contudo, isso por si só não é suficiente. O segundo filtro essencial é que a exposição setorial ou geográfica do ETF esteja alinhada com o cenário macroeconômico vigente. Por exemplo, ETFs ligados a commodities metálicas, como o BPIC39, fazem sentido em um mundo com expectativa de recomposição de estoques e possível inflação de ativos reais. Já ETFs focados no setor financeiro brasileiro, como o FIND11, podem se beneficiar da manutenção de juros elevados no curto prazo e da normalização do crédito.

Outro ponto importante é evitar sobreposição excessiva entre os ETFs selecionados. Muitos fundos negociados em bolsa acabam replicando índices semelhantes ou mantendo elevada correlação entre suas posições. Por isso, além da diversificação geográfica, é fundamental considerar a diversificação temática e setorial para garantir uma carteira equilibrada.


Ajustes táticos e margem para caixa

Embora o portfólio inicial seja desenhado com base em tendências e fundamentos, ele não deve ser rígido. O cenário global está em constante evolução, e ajustes táticos se tornam não apenas recomendáveis, mas necessários. Assim, manter uma posição de caixa — em torno de 5% a 10% do portfólio — é uma decisão estratégica. Essa reserva permite aproveitar oportunidades pontuais e reagir a mudanças inesperadas no mercado com agilidade.

Essa flexibilidade tática pode incluir, por exemplo, aumentar a exposição em ouro (como o ETF BIAU39) caso o cenário global passe por um choque de liquidez ou instabilidade geopolítica. Ou reduzir exposição a setores cíclicos no Brasil se houver uma deterioração adicional das contas públicas. A margem de manobra é tão importante quanto a seleção inicial de ativos.

Em síntese, a estratégia com ETFs para 2026 não é apenas seguir tendências, mas construir uma carteira com visão de médio e longo prazo, que combine técnica, macroeconomia e gestão ativa de riscos.

Seleção atual e comentários sobre os ativos escolhidos

ETFs brasileiros com potencial e riscos monitorados

Apesar da preocupação com o risco fiscal e político no Brasil, ainda existem oportunidades pontuais na Bolsa brasileira. ETFs como o BMMT11 (Morningstar Brasil Momento) se destacam por reunir empresas com forte tendência de valorização, aproveitando o fluxo de investidores locais e estrangeiros em busca de ativos descontados, mas com boas perspectivas técnicas.

Outros ETFs como o FIND11 (setor financeiro) e MATB11 (materiais básicos) continuam sendo acompanhados de perto, pois podem se beneficiar de juros ainda elevados e do desempenho de empresas ligadas a commodities. No entanto, é fundamental evitar replicações desnecessárias entre ETFs que seguem o Ibovespa ou seus subíndices. Por isso, é bom ficar atendo a exposição a fundos como BOVA11, BBOV11 e outros que seguem o índice principal, priorizando representações setoriais e temáticas mais específicas.

O Brasil ainda concentra parte significativa da minha carteira, mas com alocação reduzida em relação aos planos iniciais. O objetivo é buscar um equilíbrio entre aproveitar o carrego da renda variável brasileira, que oferece bons dividendos, e evitar exposição excessiva a um país com elevada instabilidade institucional.


Exposição internacional e diversificação setorial

A exposição internacional se tornou um pilar central da estratégia. ETFs como o BEEM39, que acompanha mercados emergentes, e o PKIN11 e TECX11, voltados à China, oferecem diversificação geográfica e potencial de retorno diante de ciclos econômicos distintos dos países desenvolvidos. A China, mesmo com seus desafios estruturais, ainda é um vetor importante de crescimento global — especialmente em setores industriais e tecnológicos.

Setores globais específicos também ganham destaque. O CHIP11, que representa empresas de semicondutores nos EUA, é uma escolha relevante para capturar o crescimento tecnológico contínuo, mesmo num cenário de reprecificação de ativos de tecnologia. O NUCL11, focado em energia nuclear, e o BPIC39, voltado para mineração e metais, alinham-se à tese de reindustrialização e transição energética em curso.

Esses ativos contribuem para reduzir a correlação da carteira com o ciclo doméstico brasileiro e expõem o portfólio a setores estratégicos no cenário global, como tecnologia, commodities e infraestrutura.


Ajustes e exclusões recentes

Outros ETFs, como o REVE11 (focado em receitas verdes), foram excluídos devido à ausência de sinal técnico e pela falta de diferencial estratégico neste momento de rotação setorial. Essas decisões são importantes para manter a carteira enxuta, ágil e com ativos de convicção elevada.

Com base nessas escolhas, a alocação atual está concentrada em cerca de 12 ETFs, respeitando os critérios de tendência técnica, alinhamento macroeconômico e diversificação setorial e geográfica. O foco segue em capturar movimentos estruturais de médio prazo e manter resiliência diante de possíveis correções de mercado.

Perspectivas

A criação desta carteira de ETFs nasce com uma proposta clara: aliar estratégia técnica de curto e médio prazo com um olhar atento ao cenário macroeconômico global. Em vez de seguir passivamente os principais índices, buscamos construir uma carteira ativa, com critérios rigorosos de entrada, saída e alocação, privilegiando tendências, assimetrias e equilíbrio regional e setorial.

Para os próximos meses, a dinâmica dos juros globais continuará sendo um dos principais vetores para ajustes na carteira. A possibilidade de cortes nos Estados Unidos em 2026, conforme projetado por membros do Federal Reserve, cria um ambiente potencialmente favorável para ativos de risco, especialmente nos mercados emergentes e em setores cíclicos. A performance recente das commodities metálicas, por exemplo, confirma esse movimento de rotação.

No Brasil, o elevado juro real continua sendo um fator de atração para o capital estrangeiro e uma âncora para o real, mas a vulnerabilidade fiscal permanece no radar. Por isso, apesar das boas oportunidades técnicas no curto prazo, a exposição a ativos domésticos será sempre controlada e reavaliada periodicamente. Sempre bom ter pelo menos 5% em caixa — um espaço estratégico para aproveitar eventuais correções ou oportunidades táticas de entrada.

O processo de acompanhamento será contínuo. Os ETFs presentes na carteira serão monitorados diariamente em termos técnicos, enquanto dados macro e eventos políticos também serão incorporados nas análises semanais. Essa disciplina é essencial para manter a carteira ajustada, evitando a complacência em momentos de volatilidade ou de mudanças de tendência.

Nosso compromisso é manter a alocação racional, adaptável e alinhada com os movimentos mais relevantes do mercado global — sempre respeitando o princípio de que gestão ativa com base em evidências pode gerar retornos superiores com controle de risco.