A Zig, empresa de software que atua com soluções de pagamento, gestão e consumo para o público de bares e restaurantes, resolveu avaliar uma potencial alienação do controle. A apuração da reportagem indica que os sócios pretendem receber R$ 1 bilhão em uma eventual venda, mas o mercado trabalha com um número mais próximo de R$ 700 milhões. O movimento acendeu o radar de grupos estratégicos, e o iFood chegou a ser o candidato mais cotado, antes de as conversas perderem força.

iFood recua da compra, mas mantém mesa ativa

Nos meses recentes, representantes da Zig percorreram o mercado em busca de potenciais compradores estratégicos, conforme relatos colhidos pela reportagem. O iFood, dono de cerca de 80% do setor de delivery no Brasil, despontou como o interessado mais avançado, com negociações que chegaram a ganhar ritmo. A tração, porém, se dissipou, e hoje a gigante de entregas não demonstra apetite para incorporar a Zig por meio de uma aquisição integral.

Mesmo com o recuo, o diálogo não foi encerrado. As tratativas seguem em andamento para possíveis parcerias envolvendo a Zoop e a Sympla, braços do ecossistema do iFood. A leitura de especialistas é que, sem a compra, a Zig ainda pode atuar dentro da engrenagem operacional do grupo, especialmente em áreas como infraestrutura de pagamento e soluções de gestão para o varejo de alimentação fora do lar.

Aquisições recentes do iFood e o espaço para a Zig

A trajetória recente do iFood indica uma consolidação agressiva em torno do atendimento a restaurantes. Em 2022, a companhia comprou a Anota AI e passou a investir em ferramentas de gestão como OPDV, Saipos e 3S Checkout. Também entraram para o portfólio a divisão de software para alimentação da Videosoft e a Advolve. Em 2026, a Get In foi incorporada, ampliando um leque que já vai muito além da logística de entrega.

Dentro dessa arquitetura, a Zig ocupa um lugar natural. A plataforma, desenvolvida para operar no ponto de venda, reúne funcionalidades de pagamento, gestão e dados de consumo em um único ambiente. Essa característica complementaria as ferramentas oferecidas pelo iFood aos estabelecimentos parceiros, criando um ecossistema integrado e reduzindo a fragmentação de soluções. Para analistas, esse enquadramento aumenta a relevância estratégica da Zig em um movimento de verticalização do setor.

Leitura de dados do salão como diferencial competitivo

Um dos trunfos da Zig, na avaliação de Jean Pontara, da consultoria J. Pontara, é a especialização na leitura de dados do salão. A empresa desenvolveu uma capacidade rara de interpretar o comportamento dos clientes no espaço físico do restaurante ou bar, um ativo que se tornou central para quem deseja expandir sua presença no mercado de alimentação fora do lar. O iFood, que busca se consolidar como plataforma central dos restaurantes, vê nesses dados um caminho para decisões mais precisas e ofertas mais assertivas.

Pontara também observa que a estratégia do iFood favorece a fidelização dos empreendedores que passam a integrar sua rede. O ecossistema oferece uma porta de entrada facilitada para novos negócios, com ferramentas completas e acesso a uma base ampla de clientes. No entanto, conforme a operação amadurece, o custo de trocar de fornecedor cresce consideravelmente, criando uma dinâmica de dependência que é típica de modelos de plataforma. Esse efeito torna a Zig ainda mais atraente como peça de consolidação, mesmo com as incertezas sobre o preço final do negócio.

Captação de R$ 265 milhões e o futuro da companhia

Para sustentar a operação de infraestrutura financeira e tecnologia, a Zig levantou R$ 265 milhões desde 2024. O montante reforçou o caixa da empresa em um momento de expansão e mostrou a capacidade de atração de capital em um setor disputado. A captação também evidencia a solidez do projeto de negócio, ainda que a expectativa de valuation dos acionistas esteja acima do que o mercado considera razoável.

A distância entre os R$ 1 bilhão desejados e os R$ 700 milhões estimados por analistas permanece como o principal obstáculo para um acordo definitivo. Mesmo assim, as conversas com o iFood e com outros potenciais parceiros seguem abertas, abrangendo tanto uma eventual mudança de controle quanto novas alianças estratégicas. O desfecho desse processo vai definir o posicionamento da Zig no concorrido mercado de tecnologia para bares e restaurantes nos próximos anos. Para acompanhar os desdobramentos de transações como essa e o impacto na economia, você pode acompanhar as principais notícias aqui na SpaceMoney.