O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, rejeitou publicamente a escalada de alertas catastróficos vindos de nomes de peso da inteligência artificial e cobrou que a própria indústria assuma a responsabilidade por conter os riscos que cria. Em entrevista ao Axios divulgada no sábado, o chefe da pasta econômica americana classificou como alarmismo inútil o tom adotado por parte da comunidade de IA e defendeu uma aceleração segura, em linha com o discurso do presidente Donald Trump, que já havia tratado os avisos como embuste.
Na avaliação de Bessent, prever o pior cenário sem apresentar saídas não configura liderança, e a tarefa de mitigar ameaças cabe aos laboratórios que desenvolvem os modelos. A posição contrasta com a de executivos como Dario Amodei, da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, da xAI, que em setembro pediram uma desaceleração no desenvolvimento dos sistemas mais avançados. Bill Gates, cofundador da Microsoft, também alertou que a tecnologia teria poder suficiente para provocar um bilhão de mortes e defendeu regulação governamental.
Disputa com a China e o receio de perder a liderança
Bessent ancorou seu argumento na competição geopolítica. Segundo ele, os Estados Unidos não podem abrir mão da dianteira tecnológica frente à China, e é justamente essa corrida que torna inviável frear o setor. O presidente Donald Trump havia rejeitado de imediato os pedidos de pausa, insistindo que o país precisa avançar para não ser ultrapassado por Pequim — sentimento que o secretário do Tesouro repetiu na entrevista.
Sobre as solicitações de executivos por novas regras, a resposta de Bessent foi direta: que desacelerem, se assim desejarem. Ele reforçou que os laboratórios precisam responder por suas criações e afirmou ver sinais de que as empresas já começam a incorporar essa lógica em sua governança. A reportagem é da Bloomberg.
Trump descarta novas leis e aposta em auditoria externa
Em reunião com líderes do setor — entre eles Musk, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, Mark Zuckerberg, da Meta, Alex Karp, da Palantir, e Greg Brockman, presidente da OpenAI —, Trump afastou a hipótese de novas regulamentações federais. O presidente disse a jornalistas que já existe fiscalização por meio do Departamento de Justiça e do FBI, mas que a autorregulação tem peso decisivo.
Como alternativa, o governo americano endossou o uso de auditores externos para avaliar a segurança dos sistemas de IA, dentro de um pacto não vinculante firmado com executivos do Vale do Silício.
Notificações bilaterais e o risco dos modelos sem barreiras
Washington também pretende reduzir incertezas por meio de um mecanismo bilateral de alertas com os chineses, desenhado para trocar avisos sobre episódios críticos e permitir respostas antes que uma falha se amplie ou ganhe escala global. Bessent e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, discutiram o tema em Nova York em setembro e concordaram em criar um diálogo EUA-China sobre IA.
O encontro precedeu a cúpula entre Trump e Xi Jinping em Washington, na qual a inteligência artificial figurou entre os assuntos tratados. Xi sinalizou a Trump que os dois países podem seguir conversando sobre riscos e benefícios da tecnologia e atuar juntos para evitar usos indevidos. Entre as preocupações citadas por Bessent estão agentes de IA fora de controle e atores não estatais usando a ferramenta para ataques cibernéticos ou biológicos.
O secretário alertou ainda que muitos modelos chineses carregam poder considerável — não equiparável ao dos sistemas americanos, mas equivalente a 80% ou 90% de sua capacidade — e podem circular pelo mundo sem as barreiras de proteção adequadas.





