Na final da Copa do Mundo disputada em Nova Jersey no mês passado, um camarote de luxo reuniu dois nomes que, juntos, expõem o ponto mais sensível da relação entre criptomoedas e o poder nos Estados Unidos. Zach Witkoff, cofundador da World Liberty Financial, dividiu a experiência com Guren “Bobby” Zhou, um empresário que dois anos antes era alvo de uma investigação por lavagem de dinheiro na Grã-Bretanha e carregava o colapso de uma startup de cripto. O encontro aconteceu quando Zhou já se tornara um dos maiores compradores de tokens da empresa ligada ao presidente Donald Trump, com desembolso de pelo menos US$ 100 milhões por meio da Aqua 1, uma firma recém-criada.
A transação não passou despercebida nos bastidores jurídicos e políticos. Pela política de distribuição da World Liberty, até US$ 75 milhões foram repassados a uma empresa controlada pelo presidente e por seus três filhos, e parte do dinheiro também chegou à família de Steve Witkoff, o enviado especial de paz da administração Trump e pai do cofundador. Em qualquer outra época, um aporte desse porte vindo de um estrangeiro sem sinais públicos de acesso àquele nível de riqueza seria considerado uma violação frontal de normas, com potencial para abrir uma investigação no Congresso americano.
O enigma da Aqua 1 e o comprador que surgiu do nada
Durante meses, Zhou manteve silêncio público sobre a compra dos tokens. A única exceção foi uma transmissão de áudio de baixa repercussão na plataforma X, na qual ele se apresentou como “Mr. Bobby”, representando a Aqua 1, e declarou orgulho em ser um player importante na World Liberty, definida por ele como o empreendimento cripto da família Trump. O recato contrastou com o tamanho da operação: trata-se de uma das maiores injeções individuais já identificadas no negócio da família presidencial.
A origem do capital, porém, segue uma incógnita. Exame detalhado da trajetória de Zhou, a partir de entrevistas com ex-associados e da análise de documentos confidenciais e registros judiciais, mostrou um homem habituado a pedir dinheiro a outros, que só experimentou uma reviravolta financeira depois que sua empresa de cripto queimou US$ 7,6 milhões e ele se mudou de Londres para os Emirados Árabes Unidos, em meados de 2024. Essa guinada súbita é apontada como um dos principais sinais de alerta do caso.
O bilionário fluxo de dinheiro anônimo para Trump
A mais recente declaração financeira do presidente revelou que os negócios de cripto de Trump arrecadaram US$ 1,4 bilhão no ano passado, com a maior parte do montante vinda de fontes anônimas. O dado dimensiona a importância estratégica do setor para o patrimônio da família e, ao mesmo tempo, acentua a dificuldade de saber quem realmente está comprando influência por meio das empresas do presidente.
Especialistas em crimes financeiros veem no caso de Zhou um exemplo quase didático de como o anonimato dos criptoativos pode ser usado para injetar dinheiro de origem duvidosa em torno de uma figura pública. Patrick Prinz, diretor de operações da Recoveris, companhia suíça dedicada à investigação de crimes com ativos digitais, afirmou que a combinação de fracassos empresariais, acesso repentino a riqueza, volume da transação e uma investigação em andamento deveria ter acionado, de forma automática, a exigência de documentos que comprovassem a fonte dos recursos.
Investigação britânica e o teste de compliance
Na Grã-Bretanha, um registro judicial protocolado em novembro aponta Zhou como parte de um esquema de lavagem de dinheiro iniciado em 2019, junto com outras cinco pessoas. Ele não foi formalmente acusado, e as autoridades britânicas disseram, no fim do mês passado, que a apuração permanece ativa. Essas informações eram publicamente acessíveis antes de a World Liberty receber os US$ 100 milhões, assim como o conturbado histórico empresarial do comprador.
A legislação de combate à lavagem de dinheiro obriga empresas, em determinadas circunstâncias, a documentar a origem dos fundos de clientes antes de aceitar pagamentos de grande valor. No caso de Zhou, a dúvida central é saber até que ponto a World Liberty buscou essa documentação e por que um comprador com um perfil tão arriscado foi recebido sem barreiras aparentes. Representantes da companhia não responderam se a origem do dinheiro foi verificada antes da conclusão do negócio.
Respostas oficiais e o silêncio do empresário
Em comunicado, o porta-voz da World Liberty, David Wachsman, afirmou que a empresa segue todas as leis e regulamentações aplicáveis e que mantém um programa de conformidade que atende ou supera os padrões do setor. Wachsman também contestou a caracterização do empresário feita pela imprensa, mas não apresentou detalhes sobre o que considerou impreciso, nem esclareceu se a empresa tinha conhecimento da origem dos fundos.
A Casa Branca entrou na discussão por meio da porta-voz Anna Kelly, que afirmou não existir conflito de interesses na atuação do presidente e que Trump age apenas no melhor interesse do povo americano. Zhou, por sua vez, permaneceu em silêncio e não respondeu às mensagens enviadas a ele ou à Aqua 1. Até agora, não há explicação pública sobre como um varejista de pisos, com histórico de dívidas, conseguiu mobilizar US$ 100 milhões.
O anti-herói de Xangai: pisos, dívidas e promessas
Criado em Xangai, Zhou mudou-se para a Inglaterra em 2005 para cursar pós-graduação. Foi na moradia estudantil da Universidade de Lancashire que ele começou a distribuir pisos de madeira produzidos pelo pai na China. O negócio cresceu e passou a incluir uma fábrica na Itália, um site e cerca de 20 lojas de varejo, que estampavam em suas fachadas de aço corrugado a promessa de que o cliente economizava mais.
Em 2017, em uma missão comercial do governo galês em Xangai, Zhou apresentou a autoridades locais um plano para abrir uma loja a menos de 40 quilômetros de cada residente do País de Gales. Ken Skates, então ministro do desenvolvimento econômico galês, classificou a proposta como excessivamente ambiciosa e desconectada da realidade de um país rural. A ideia não avançou, e, um ano depois, Zhou colocou as empresas em administração, o equivalente britânico à recuperação judicial.
Dívida com o pai e os US$ 10 milhões que nunca chegaram
Durante o processo de insolvência, as lojas foram vendidas sem gerar lucro, e os registros contábeis indicavam uma dívida de US$ 5 milhões com a empresa do pai de Zhou, que nunca foi paga. Um associado da época afirmou que Zhou chegou a dizer que receberia US$ 10 milhões de uma empresa chinesa às vésperas da quebra, mas o montante nunca apareceu, o que levou o interlocutor a duvidar da veracidade da promessa.
Thomas Corey Lewis, sócio de Zhou na fábrica italiana, mantém até hoje uma leitura mais generosa sobre o parceiro. Ele afirma que Zhou tinha conexões relevantes na China e uma rara capacidade de convencimento, sendo capaz de sentar diante de um conselho de pessoas inteligentes e obter financiamento. A mesma habilidade, porém, contrasta com o estilo de vida modesto que levava em Southampton, onde ocupava um apartamento de 110 m² a duas horas de Londres, ao lado da esposa e da filha pequena, e passava o tempo livre jogando tênis de mesa em uma liga recreativa.
Receio entre ex-associados e recepção calorosa
Vários ex-associados aceitaram falar apenas sob anonimato, com medo de serem arrastados para a investigação britânica ou de violar as rígidas leis de difamação dos Emirados Árabes Unidos, onde a calúnia pode ser tratada como crime mesmo quando verdadeira. Eles descreveram Zhou como um encantador de alta octanagem, com sotaque britânico e poder de persuasão comparado à capacidade de vender gelo numa nevasca. Ainda assim, todos ficaram chocados ao saber que ele comprou US$ 100 milhões em tokens depois de deixar Londres.
Enquanto alguns profissionais dizem ter recusado negócios com Zhou após checar seu histórico, a World Liberty recebeu a Aqua 1 de braços abertos. O cofundador Zak Folkman chegou a declarar publicamente, na rede X, que estava animado para trabalhar lado a lado com a equipe do novo parceiro. A empolgação inicial, porém, contrasta agora com os questionamentos que cercam a operação.





