Desde a redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno de uma eleição presidencial na segunda colocação conseguiu virar o jogo na rodada seguinte. O retrospecto das sete disputas decididas em dois turnos desde 1989, debatido no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, aponta que o mais votado na etapa inicial acabou eleito em todas elas — padrão que chega a 2026 sob escrutínio, dada a diferença curta entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas.
Um padrão que atravessa sete eleições
Em 2014, Dilma Rousseff (PT) fechou o primeiro turno com 41,59% dos votos válidos, contra 33,55% de Aécio Neves (PSDB), vantagem superior a oito pontos. Na segunda votação, a petista venceu por 51,64% a 48,36%, diferença de 3,28 pontos. O roteiro voltou a se repetir em 2022: Lula terminou a primeira etapa com 48,43%, ante 43,20% de Jair Bolsonaro, abrindo 5,23 pontos, e confirmou a vitória por 50,90% a 49,10%, margem de 1,8 ponto.
O pleito de 2018 seguiu trajetória distinta em magnitude, mas idêntica em desfecho. Jair Bolsonaro alcançou 46,03% no primeiro turno, contra 29,28% de Fernando Haddad (PT), e ampliou a vantagem na rodada seguinte, vencendo por 55,13% a 44,87%. Os exemplos evidenciam que a votação final pode redimensionar a diferença entre os postulantes sem alterar a ordem de chegada de cada um.
Margem estreita coloca mobilização no centro
Para Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), esta é a décima eleição geral brasileira desde a redemocratização e promete figurar entre as mais acirradas da história. Segundo ele, uma distância inferior a cinco pontos entre Lula e Flávio no domingo deslocaria o foco para variáveis como comparecimento às urnas, votos brancos e nulos e capacidade de mobilização das bases, eixos que concentram o debate político deste ano. O pesquisador avalia que existe hoje chance concreta de virada no segundo turno, ressalvando que se trata de uma avaliação do entrevistado e não de uma projeção de resultado.
Ele acrescenta que oscilações relativamente pequenas na participação do eleitorado ganham peso quando os dois candidatos chegam muito próximos à votação final. A eleição de 2022 dimensiona essa sensibilidade: a abstenção ficou em 20,95% no primeiro turno e em 20,59% no segundo, enquanto a diferença final entre Lula e Bolsonaro ficou em pouco mais de 2,1 milhões de votos.
Pesquisas de 2026 mostram distância curta
Levantamento da Quaest divulgado na segunda-feira (28) apontou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio com 34%. Na simulação de segundo turno, os dois aparecem empatados, ambos com 42%. O quadro é mais apertado do que o observado na reta final de 2022, quando o petista chegou à primeira rodada com pouco mais de cinco pontos de vantagem sobre o então adversário.
Ainda assim, o retrospecto histórico não opera como regra eleitoral. Cada rodada reorganiza alianças, redistribui os votos dos candidatos eliminados e pode alterar o nível de comparecimento. Caso Lula e Flávio cheguem ao segundo turno separados por uma margem pequena, esses movimentos tendem a ter peso maior do que em pleitos nos quais o primeiro colocado construiu vantagem de dois dígitos já na etapa inicial — o que mantém aberta a possibilidade de uma reviravolta inédita desde 1989.





