O PSD projeta ampliar sua bancada no Congresso em 2026 mesmo com o fracasso da chamada terceira via na disputa presidencial. A avaliação é de Guilherme Afif Domingos, fundador da sigla e atual Secretário Extraordinário de Projetos Estratégicos do Governo de São Paulo, para quem o crescimento do partido deve ser medido pelos cargos de representação, e não pela corrida ao Planalto.

Em entrevista à coluna Radar, da Veja, Afif afirmou que a eleição deste ano funciona, para o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, como uma disputa voltada ao crescimento de representação. Segundo ele, a polarização em torno do cargo presidencial não chega à base, onde há muitos eleitores independentes em relação aos dois polos e com posição política definida no plano local.

A sigla entrou na corrida ao Planalto com chapa encabeçada por Ronaldo Caiado, tendo Kassab como candidato a vice. A poucos dias da eleição, as pesquisas de intenção de voto apontam que a construção de uma terceira via não se viabilizou na prática.

Origem e a recusa a rótulos ideológicos

Criado em 2011 a partir da articulação de Gilberto Kassab, então ex-prefeito de São Paulo, o Partido Social Democrático nasceu com uma marca que definiria sua trajetória: a recusa a se alinhar de forma fixa a um campo ideológico. Na época da fundação, Kassab sustentou que a legenda não pertenceria nem à direita, nem à esquerda, nem ao centro.

O desenho institucional acompanhou essa escolha. Os diretórios estaduais mantêm autonomia para costurar alianças conforme as conveniências regionais e eleitorais, o que permite que um candidato a governador no Nordeste faça campanha ao lado de lideranças progressistas enquanto um nome do Sul se associe a figuras conservadoras. Na prática, o partido opera como uma confederação de líderes regionais, na qual o pragmatismo eleitoral pesa mais do que manifestos doutrinários.

Esse modelo permitiu à legenda atravessar governos de orientações opostas na última década, mantendo canais de negociação abertos, ocupando espaços na Esplanada dos Ministérios e usando a estrutura federal para reforçar suas bases locais.

A máquina municipal e o recorde de 2024

O eixo central da estratégia do PSD é municipalista. O controle de prefeituras dá ao partido a estrutura necessária para formar bancadas numerosas na Câmara dos Deputados, o que se converte em fatias maiores do fundo eleitoral e em mais tempo de televisão.

Nas eleições municipais de 2024, essa aposta atingiu seu ponto mais alto. O partido elegeu 887 prefeitos, o maior número do país, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral, e superou o MDB, que ocupava a liderança do ranking nacional de prefeituras havia duas décadas.

Com o comando de orçamentos municipais bilionários, a sigla ampliou sua influência sobre serviços básicos, como zeladoria urbana, pavimentação e saúde. Como as prefeituras dependem de transferências estaduais e federais para tocar obras, os parlamentares do partido em Brasília atuam como articuladores dessas demandas, usando o apoio a iniciativas do Planalto como moeda de troca por investimentos destinados às suas bases eleitorais.

Da Esplanada dos Ministérios ao governo paulista

A elasticidade da legenda aparece nos cargos que ocupa. No governo federal, a sigla comanda três pastas na gestão de Lula: Agricultura, Pesca, e Minas e Energia, áreas que dão ao partido influência sobre o agronegócio e sobre a matriz energética nacional.

Ao mesmo tempo, Kassab é o titular da Secretaria de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, no governo Tarcísio de Freitas, eleito com apoio do campo conservador. Enquanto em Brasília o PSD vota pautas de interesse do governo progressista, em São Paulo constrói uma base de centro-direita e atrai dissidentes de outras legendas.

Para 2026, o partido também abriga pré-candidatos à Presidência que se colocam como oposição aberta ao governo federal, caso do próprio Caiado. Essa pluralidade de quadros é usada para valorizar o passe político da sigla, que testa nomes nas pesquisas enquanto mantém a máquina governista funcionando a seu favor.

Caiado, a polarização e a aposta no Legislativo

A força regional de Caiado não se converteu em tração nacional. Uma pesquisa Quaest divulgada em julho apontou aprovação de 87% dos eleitores goianos, desempenho insuficiente para mobilizar sua candidatura no plano federal.

Para Afif, a polarização entre petistas e bolsonaristas, que seguiu marcando o país depois de 2022, prejudicou o desempenho da chapa. O dirigente avaliou que Caiado merecia mais votos por seu perfil de gestor.

Afif também projetou que a radicalização não deve se sustentar depois da eleição. Caso essa tese se confirme, Caiado ou o aliado Tarcísio de Freitas surgem como nomes capazes de liderar a direita em 2030.

No curto prazo, o foco declarado é o Legislativo. Afif lembrou que Kassab comandou a eleição do maior número de prefeitos do país e que o prefeito tem influência direta na escolha de deputados. Por isso, defende que o avanço do PSD seja medido nos cargos de representação, e não no Executivo.

O peso da sigla nas votações é apontado como decisivo para a aprovação de reformas constitucionais e para a estabilidade institucional. Sem a adesão do partido no Congresso, essas matérias se tornam tarefa difícil para qualquer ocupante do Palácio do Planalto.