O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta um paradoxo que desafia analistas: enquanto indicadores como desemprego em mínimas históricas (5,6% em maio) e crescimento do PIB acima de 3% nos últimos dois anos apontam para uma recuperação robusta, 44% dos brasileiros avaliam que a economia piorou nos últimos 12 meses. A economista Laura Carvalho, professora da FEA-USP e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (Conselhão), se dedicou a estudar esse descolamento em um artigo recente, em coautoria com Guilherme Klein Martins.
Os quatro fatores do descompasso
Carvalho e Martins identificaram quatro causas principais para a dissonância entre a realidade macroeconômica e a percepção da população. O primeiro fator é a inflação e seus efeitos persistentes sobre o bem-estar, que continuam a pressionar o orçamento das famílias mesmo com a queda dos índices. O segundo é a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, quando o consumo de massas se expandiu rapidamente com a inclusão de milhões de brasileiros no mercado consumidor.
O terceiro aspecto envolve as redes sociais, que criaram desejos de consumo para além do crescimento da renda. A economista observa que as pessoas agora têm acesso ao padrão de vida de classes muito mais ricas, gerando aspirações globalizadas e insatisfação. O quarto fator é a frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos compatíveis com sua formação.
Inflação e memória recente
Embora a inflação esteja controlada, os efeitos dos choques anteriores permanecem na memória dos consumidores. O aumento acumulado de preços nos últimos anos corroeu o poder de compra, e a recuperação ainda não foi plenamente sentida no dia a dia. Além disso, a comparação com o período de forte mobilidade social dos governos Lula 1 e 2 gera expectativas que não se repetem agora.
Naquela época, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico permitiram que uma parte da população tivesse acesso a bens antes inacessíveis, como geladeira e viagem de avião, criando uma nova classe média. Hoje, esse mesmo padrão de consumo já não satisfaz, e as aspirações subiram de nível.
Redes sociais e o novo padrão de consumo
Carvalho destaca que as redes sociais desempenham um papel central na formação das expectativas. Com a exposição constante ao estilo de vida de influenciadores e classes abastadas, os desejos de consumo se homogeneizam globalmente, gerando uma sensação de insatisfação generalizada. Esse fenômeno não existia nos anos 2000, quando a comparação se limitava ao entorno social imediato.
A homogeneização dos desejos cria uma pressão por bens e serviços que não necessariamente acompanha o crescimento da renda. Mesmo com o aumento do emprego formal e da renda real, a percepção de bem-estar não acompanha, pois as referências mudaram.
A agenda de tributação defendida por Carvalho
Laura Carvalho defende que o próximo passo para reduzir a desigualdade no país é avançar na taxação da riqueza. Ela ressalta que a concentração de riqueza no topo da pirâmide é ainda maior que a de renda, e que a reforma do Imposto de Renda já em andamento – com isenção para quem ganha até R$ 5 mil e alíquota mínima para os mais ricos – é apenas o começo. A economista argumenta que é necessário tributar o estoque de riqueza para corrigir desigualdades históricas.
Para Carvalho, o debate sobre tributação deve incluir não apenas a renda, mas também o patrimônio, já que a concentração de riqueza se perpetua no sistema político, dando poder desproporcional aos mais ricos para preservar a estrutura atual. Ela cita o papel da dívida pública como instrumento de transferência de renda para o topo.
Dívida pública e perpetuação da desigualdade
Outro ponto destacado pela economista é o custo distributivo da dívida pública. O Brasil paga juros elevados que beneficiam detentores de títulos, muitos deles pessoas de alto patrimônio. Isso significa que o governo transfere renda para os mais ricos por meio do serviço da dívida, algo pouco discutido no debate público.
Carvalho problematiza que essa transferência contribui para manter a desigualdade elevada, mesmo com gastos sociais robustos. Para ela, a política fiscal precisa ser redesenhada para que os benefícios do crescimento cheguem de forma mais equitativa, combinando expansão de serviços públicos e diversificação econômica. Nesse contexto, é fundamental que a sociedade acompanhe as decisões do governo e do Congresso. Você pode acompanhar os bastidores e as principais decisões da política em tempo real aqui na SpaceMoney.





