Um levantamento da Associação de Jornalismo Digital (Ajor) revela que um em cada quatro dos portais de notícias associados perdeu mais de 20% da audiência ao longo de 2025. O recuo é atribuído à expansão dos resumos gerados por inteligência artificial nos buscadores, que passaram a concentrar as respostas às consultas dos usuários e reduziram a necessidade de clicar nos links originais. O fenômeno, acelerado desde maio de 2024 com a chegada do AI Overviews do Google em português, reacendeu o debate sobre o financiamento do jornalismo profissional e a necessidade de regulação do setor.

Perda de audiência nos veículos de imprensa digital

A pesquisa da Ajor, que reúne 152 veículos digitais, indica que essa queda não é um caso isolado, mas um movimento estrutural. A conclusão é que a redução do tráfego proveniente de ferramentas de busca é uma realidade concreta entre as associadas. O cenário é especialmente grave para os jornais que dependem predominantemente da publicidade, já que as receitas são calculadas com base nas métricas de audiência.

Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da Ajor, classificou a situação como preocupante. Ela explicou que a diminuição do número de visitantes afeta diretamente a atração de anunciantes e o cálculo do financiamento dos veículos. Segundo ela, o ecossistema jornalístico já vivia uma crise, com a migração da publicidade para as plataformas digitais, e os resumos de IA aprofundam esse cenário de dificuldade para manter os negócios.

IA generativa no buscador e a mudança no acesso à informação

O ponto de inflexão ocorreu em maio de 2024, quando o buscador dominante no mercado passou a apresentar respostas sintetizadas por inteligência artificial para consultas em português. O recurso, conhecido como AI Overviews, passou a fornecer respostas completas no topo dos resultados, o que retém o usuário na própria página de busca. Essa mudança reduz os cliques nos links dos sites e, por consequência, o tráfego de referência.

Especialistas ouvidos na apuração apontam que a novidade tem potencial de prejudicar a qualidade do debate público, pois a informação consumida de forma fragmentada pode perder o contexto. A preocupação cresce em um cenário de proliferação de fake news, muitas vezes impulsionado pelas mesmas plataformas que dominam o mercado de inteligência artificial.

Marco regulatório e a disputa pelos direitos autorais

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o PL 2338, de 2023, que trata do Marco Regulatório da IA, prevê que plataformas digitais paguem pelos direitos autorais das obras e reportagens utilizadas pela tecnologia. A proposta foi anunciada como prioridade pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mas não avançou no último semestre. O tema é visto como uma alternativa para fortalecer o jornalismo profissional diante da crise de sustentabilidade.

Carla Egydio também destacou que os resumos automáticos não exibem a totalidade do conteúdo das reportagens, o que pode gerar descontextualização e prejuízos ao debate público. Ela mencionou ainda a ocorrência de cópia literal de trechos, situação que aumenta a tensão entre os veículos e as big techs. A expectativa é que o Congresso volte a discutir a matéria com urgência, mas ainda não há previsão para a votação.