O governo dos Estados Unidos classificou como ‘absurda’ a avaliação do Itamaraty de que a classificação de facções criminosas como terroristas poderia levar a uma ação militar americana em território brasileiro. Em resposta a um documento enviado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, à Câmara dos Deputados, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que as medidas unilaterais contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) são baseadas em prerrogativas soberanas dos EUA. A tensão diplomática marca uma nova fase nas relações bilaterais, com Brasília alertando para consequências extraterritoriais.
Reação dura de Washington
A nota divulgada pelo Departamento de Estado nesta terça-feira (7) refutou categoricamente a avaliação do Itamaraty, classificando as alegações como infundadas. O porta-voz norte-americano destacou que as facções brasileiras passaram a operar nos Estados Unidos, justificando as ações unilaterais de combate ao que chamou de ‘narcoterroristas’. A declaração, em discurso indireto, sugeriu que alegações vagas de intervenção servem como pretexto para proteger grupos violentos. O governo Trump, que no mês passado incluiu o PCC e o CV na lista de organizações terroristas, sinalizou que não recuará da decisão.
A controvérsia começou quando o Itamaraty respondeu a um requerimento de informações do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), alertando para o risco de uso da força militar dos EUA contra o Brasil. O documento, datado de 2 de julho, apontava que a classificação unilateral poderia ser invocada para ações extraterritoriais em âmbitos financeiro, migratório e penal. A resposta de Washington, no entanto, considerou tais preocupações descabidas.
Sanções econômicas e alvos brasileiros
Na semana passada, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou a primeira rodada de sanções econômicas decorrentes da classificação terrorista. Dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma empresa portuguesa foram incluídos na lista de restrições. Entre os alvos estão Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, além das empresas Victory Trading, Pixwave Soluções de Pagamentos, Wave Construções Inteligentes e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal. As medidas bloqueiam bens nos EUA e restringem transações financeiras.
O Itamaraty, em sua análise, havia antecipado que sanções unilaterais poderiam surgir, mas não esperava a escalada retórica. A falta de comunicação formal antes do anúncio do secretário de Estado Marco Rubio foi apontada pelo ministro Mauro Vieira como um agravante. O governo brasileiro reafirmou sua oposição à classificação, argumentando que a medida não traz benefícios concretos e fragiliza a cooperação bilateral.
Implicações diplomáticas e próximos passos
A crise expõe divergências profundas na relação entre Brasil e EUA em temas de segurança e soberania. Enquanto Washington adota uma postura unilateral, Brasília tenta conter os efeitos no âmbito financeiro e penal. Você pode acompanhar os bastidores e as principais decisões da política em tempo real aqui na SpaceMoney. A expectativa é que o tema seja debatido no Congresso Nacional, com possíveis convocações de autoridades para esclarecimentos.
Especialistas avaliam que a crise pode se intensificar se novas sanções forem impostas ou se houver qualquer operação conjunta. O Itamaraty mantém a posição de que o diálogo diplomático é o caminho, mas a escalada retórica de Washington dificulta o entendimento. Nos próximos dias, o governo brasileiro deve reforçar sua posição em fóruns multilaterais, buscando aliados para conter o que considera uma ingerência externa.





