
O estado do Rio Grande do Sul chega à disputa estadual com o mesmo enquadramento que domina o cenário nacional: de um lado, o bolsonarismo na candidatura do tenente-coronel Zucco; de outro, a aliança em torno de Juliana Brizola, do PDT, que recebe o apoio do PT. Nesse terreno minado, o atual vice-governador e candidato do MDB, Gabriel Souza, tenta assumir no Estado o mesmo desafio enfrentado por Ronaldo Caiado e furar o cerco dos dois polos com uma candidatura ancorada na gestão.
A disputa gaúcha entre bolsonarismo e lulismo
As pesquisas mais recentes mostram Zucco e Juliana Brizola alternando-se na liderança. Gabriel Souza aparece na sequência, e Marcelo Maranata, do PSDB, vem na quarta posição. O desenho espelha em escala regional o confronto que organiza o eleitorado brasileiro e deixa pouco espaço para quem não se posiciona automaticamente em um dos extremos.
O desafio do candidato do MDB é semelhante ao de Ronaldo Caiado: transformar avaliação de governo, capilaridade partidária e rejeição à polarização em votos. A campanha entende que o Rio Grande do Sul tem condições de escapar do enquadramento nacional, mas sabe que a janela para isso depende de uma transferência explícita de capital político do atual governador para o candidato da coligação.
Gabriel parte, porém, de uma posição mais frágil do que a dos adversários. Não é o nome que anima a base bolsonarista nem o que mobiliza o campo lulista; para crescer, precisa convencer o eleitor de que a continuidade da administração de Eduardo Leite vale mais do que o alinhamento automático a Brasília.
Gabriel Souza, do MDB ao Piratini
Gabriel tem 42 anos e uma trajetória construída dentro do MDB, legenda que frequenta desde a adolescência. A formação em veterinária ficou para trás quando ele se elegeu deputado estadual em 2014; quatro anos depois, renovou o mandato. Foi nesse período que atuou como líder do governo José Ivo Sartori na Assembleia Legislativa e enfrentou diretamente Eduardo Leite, então adversário do partido na eleição majoritária.
A disputa de 2018 inverteu os papéis. Gabriel venceu a convenção estadual do MDB e impôs o próprio nome como vice na chapa de Leite, que tentava a reeleição. O movimento teve custo interno imediato: o partido ficou sem candidato próprio ao Piratini pela primeira vez desde 1982, e parte da legenda migrou para o apoio a Onyx Lorenzoni, então no PL.
A aposta, ainda assim, prosperou. A chapa de Leite e Gabriel superou o candidato petista no primeiro turno por menos de 2,5 mil votos e venceu a eleição no segundo turno. O episódio se tornou a principal evidência usada pela campanha para sustentar que a polarização pode ser quebrada na prática.
O nó do desconhecimento e a herança da gestão Leite
Pesquisas eleitorais indicam que cerca de 70% do eleitorado gaúcho não associa Gabriel à condição de vice-governador, não o reconhece como candidato da atual administração ou desconhece o apoio de Eduardo Leite à sua postulação. O índice é tratado na campanha como o principal gargalo para a viabilidade da candidatura.
A associação com Leite é considerada a mais estratégica. Se Gabriel for percebido como o nome da continuidade, a boa avaliação do atual governo tende a irrigar a campanha; se essa conexão não for feita, o candidato corre o risco de permanecer como coadjuvante em uma disputa marcada pelo confronto de símbolos nacionais.
O próprio candidato avalia que o desconhecimento será reduzido com o avanço da campanha. O raciocínio é que a exposição natural do pleito e a presença nos palanques vão estabelecer a ponte entre o eleitor e a gestão estadual, criando as condições para uma arrancada nas pesquisas.
Zucco e a engenharia da direita no Rio Grande do Sul
Zucco, 52 anos, militar reformado e deputado em segundo mandato, chega à disputa com um currículo eleitoral robusto. Em 2018, elegeu-se deputado estadual pelo PSL, então partido de Jair Bolsonaro, com 166 mil votos, recorde no Estado. Quatro anos depois, já filiado ao Republicanos após uma passagem pelo União Brasil, foi o deputado federal mais votado, com 259 mil votos.
A proximidade com a família Bolsonaro ampliou a visibilidade e ajudou o deputado a unificar o PL em torno do seu nome. A sigla ainda estava fraturada pela eleição anterior, quando Onyx Lorenzoni, hoje no PP, saiu à frente de Eduardo Leite no primeiro turno e depois perdeu uma disputa que parecia praticamente resolvida.
O segundo movimento de Zucco foi atrair o PP para a coligação, com a ajuda decisiva da família Covatti. O patriarca Vilson Covatti, ex-deputado estadual e federal, ocupou duas pastas no governo Leite até a legenda migrar para a oposição. O filho mais velho, Covatti Filho, preside o partido no Estado, cumpre segundo mandato federal e articula a eleição da mulher, Nicole, para a Assembleia Legislativa; Silvana Covatti, por sua vez, também integra o grupo com mandato no Parlamento estadual.
O que a eleição gaúcha antecipa para o cenário nacional
A disputa no Rio Grande do Sul funciona como um teste para a política nacional observar a força do discurso de gestão em um ambiente polarizado. A presença simultânea de um nome apoiado pelo PT e de um representante do bolsonarismo cria um campo de tensão parecido com o da eleição presidencial, mas o histórico eleitoral do Estado sugere que a transferência automática de votos pode encontrar limites.
Para Gabriel, a tarefa imediata é transformar o terceiro lugar em uma alternativa crível ao confronto direto. A aliança com Leite funciona, ao mesmo tempo, como trunfo e como amarra: associa a candidatura à avaliação positiva do governo, mas também a compromete com a continuidade de um projeto que terá de ser defendido voto a voto.
O desfecho do processo dependerá da capacidade de transformar insatisfação com a polarização em preferência eleitoral. O precedente de 2022, com menos de 2,5 mil votos separando o segundo turno, mostra que o equilíbrio é fino e que a eleição gaúcha permanece aberta a deslocamentos de última hora.





