Brasileiros vão às urnas neste domingo, 4 de outubro, para escolher o próximo presidente em uma eleição que reedita a polarização de 2022 com um novo arranjo: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, tenta um quarto mandato, enquanto o senador Flávio Bolsonaro, de 45 anos, leva adiante o movimento político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. As pesquisas apontam uma corrida apertada, e a definição pode ficar para 25 de outubro, em segundo turno, caso nenhum candidato alcance mais de 50% dos votos válidos.

Além da disputa presidencial, os eleitores escolhem governadores e integrantes dos Legislativos federal e estaduais. O Brasil adota urnas eletrônicas e costuma concluir a apuração em poucas horas, o que deve permitir saber ainda na noite deste domingo quem avança ao segundo turno e qual foi o desempenho de cada candidato na primeira rodada. Na reta final da campanha, os dois principais concorrentes se alternaram na liderança das pesquisas, o que torna o desfecho imprevisível.

Um Bolsonaro na disputa, com promessa de perdão

O ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tramar um golpe para reverter a derrota de 2022, está fora da eleição. O esquema que levou à condenação incluía, segundo a polícia, um plano para assassinar Lula. O espaço da família na disputa é ocupado pelo filho, que promete conceder perdão ao pai se vencer — transformando o destino judicial do ex-presidente em tema central de campanha.

Flávio se apresenta como uma versão mais moderada do pai, mas expôs poucas diferenças de conteúdo: questiona a responsabilidade humana nas mudanças climáticas e defende regras mais flexíveis para a compra de armas. Lula, por sua vez, foi preso em 2018 sob acusações de corrupção e lavagem de dinheiro, com condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por razões processuais — episódio que continua a alimentar o embate político no país.

A polarização segue elevada desde a crise política e econômica da metade da década de 2010, com dois campos que mobilizam apoiadores fiéis e oposição ferrenha. O resultado do pleito também terá peso institucional duradouro: cabe ao próximo presidente indicar quatro dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal.

O que o resultado pode mudar

O próximo governo vai influenciar os rumos da economia, da política ambiental, da relação com os Estados Unidos e a própria trajetória democrática do país. Em 2025, o processo e a condenação de Jair Bolsonaro pela trama golpista funcionaram como um teste para as instituições brasileiras; a promessa de perdão feita pelo filho reacendeu a discussão sobre a solidez dessas instituições.

No Índice de Democracia Liberal da V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, o Brasil aparece na 28ª posição, à frente dos Estados Unidos, que ocupam o 51º lugar. O país é membro do G20 e dos Brics, grupo ampliado que reúne quase metade da população mundial e responde por cerca de 39% do PIB global em paridade de poder de compra.

Trump e o teste do bloco pró-Trump na América Latina

A eleição brasileira virou um teste para a expansão de um bloco latino-americano alinhado a Donald Trump. Em setembro, logo depois de discursar na Assembleia Geral da ONU, o presidente americano reuniu uma dezena de líderes da região e afirmou que todos os candidatos que endossou venceram, destacando que a direita havia ganhado as sete eleições presidenciais realizadas na América Latina desde o início de seu segundo mandato. Os líderes integravam o Shield of the Americas, coalizão de 15 países governados pela direita ou pela extrema direita voltada ao combate a cartéis de drogas.

Com essas vitórias e a tomada dos Estados Unidos sobre a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, restaram seis países latino-americanos sob governos de esquerda: Brasil, México, Uruguai e Guatemala, além dos regimes isolados de Cuba e Nicarágua. Diante da proximidade geográfica e da relação econômica peculiar do México com Washington, analistas consideram o Brasil talvez o último país da região em condições de recusar as vontades de Trump — algo que pode mudar a depender do resultado.

É nesse cenário que se inserem as avaliações reunidas pelo The Guardian. Pedro Telles, professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, avalia que o México seguirá relevante e que Claudia Sheinbaum está entre os líderes de esquerda mais populares do continente, mas uma vitória de Flávio seria um duro golpe para a esquerda e um impulso importante para a extrema direita em escala global. Sandra Borda Guzmán, professora da Universidad de los Andes, na Colômbia, diz que, em vez de ampliar a autonomia regional, um triunfo da extrema direita alinharia a região de maneira incondicional às diretrizes dos Estados Unidos. Michael Shifter, da Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown, lembra que, em meio a conflitos como os de Irã, Ucrânia e Israel-Palestina, a política externa americana vai mal no restante do mundo, e que uma vitória de Bolsonaro no Brasil seria usada de modo triunfal por Trump para apresentar uma região quase totalmente alinhada.

Os dois candidatos têm posições opostas sobre a agenda americana para a região, incluindo a chamada guerra às drogas, que sustenta dezenas de ataques a embarcações com mais de 230 mortos e operações conjuntas com militares dos EUA em terra. Flávio promete aderir ao Shield of the Americas e adotar uma abordagem de mão de ferro contra o crime. Lula tem levantado preocupações sobre soberania e afirmou ser triste ver o complexo de inferioridade de presidentes latino-americanos que integram a coalizão criada por Trump.

Há interesses econômicos de peso nessa disputa. Washington condicionou a não aplicação de tarifas ao acesso privilegiado a terras raras e minerais críticos brasileiros, condição rejeitada por Lula. Flávio já ofereceu esses recursos como solução para ajudar os Estados Unidos a reduzir a dependência em relação à China. No encontro do Shield of the Americas, Trump citou a enorme riqueza natural dos países latino-americanos, que não poderia ser tomada por potências hostis — referência interpretada como dirigida a Pequim.

A relação entre os dois países também pesa na campanha por outros canais. O governo americano elevou em 40% as tarifas sobre produtos brasileiros citando o julgamento do ex-presidente Bolsonaro, e Lula negociou a redução de parte das sobretaxas sem abrir mão do que considera independência judicial. Em julho, o presidente brasileiro acusou Washington de tentar interferir na eleição, depois de autoridades afirmarem que funcionários americanos planejavam viajar ao país para lançar dúvidas sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas. O Departamento de Estado chamou a acusação de “uma mentira infundada”.

Nas manifestações de apoio a Flávio, bandeiras dos Estados Unidos aparecem com frequência, reflexo da promessa de aproximação com a administração Trump. Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, vive nos Estados Unidos e tem pressionado Trump a agir contra ministros do Supremo que conduziram o julgamento do pai.

Segurança, corrupção e economia na decisão do voto

A insegurança está entre as principais preocupações do eleitorado. Flávio defende uma linha dura no combate ao crime, que pode incluir trabalho conjunto com os militares dos Estados Unidos, enquanto Lula prioriza operações contra os financiadores das facções criminosas e demonstra desconfiança em relação à influência estrangeira nas políticas de segurança.

A corrupção também pesa. Investigações jornalísticas e policiais das últimas semanas revelaram supostos vínculos impróprios entre um ex-banqueiro preso, conhecido por esquemas de propina, e ministros do Supremo e outras autoridades. Flávio negociou uma transferência de recursos desse banqueiro e é investigado por possível lavagem de dinheiro — acusações que ele nega.

O desempenho da economia entrou no centro do debate. Os gastos públicos impulsionaram o crescimento no início do governo Lula, mas o ritmo desacelerou. Flávio sustenta que a dívida pública elevada trava a atividade, e um de seus principais assessores de campanha prometeu reduzi-la com cortes de gastos nos moldes do argentino Javier Milei. No balanço do período, desemprego, pobreza e inflação caíram e a renda média subiu, mas o endividamento das famílias cresceu — movimento que muitos atribuem às apostas online, modalidade de quota fixa que Lula proibiu dias antes da votação.

Fora do eixo Brasil-Estados Unidos, o pleito é observado com atenção por causa do peso do país. Maior economia e nação mais populosa da América Latina, o Brasil influencia negociações comerciais, a agenda climática e o equilíbrio entre Washington e o Sul Global — dimensões que o resultado deste domingo deve moldar diretamente.