
Em palestra no AI Summit EXAME, realizada em 2 de junho em São Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé questionou a premissa de que a inteligência artificial seja capaz de aumentar a felicidade humana. Pondé evitou tanto o entusiasmo ingênuo quanto o medo apocalíptico, e situou o debate dentro de uma tradição filosófica de 2.500 anos. Para ele, a IA está mais ligada à eficiência e à geração de riqueza do que ao bem-estar subjetivo.
Tradição filosófica e a metáfora do fogo
Pondé recorreu à tragédia grega Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, para ilustrar a ambivalência da técnica. O fogo, presente de Prometeu aos homens, permitiu cozinhar, iluminar e defender, mas também trouxe riscos e punição divina. O filósofo usou essa imagem para aproximar o medo contemporâneo da IA de outras visões apocalípticas sobre tecnologia, mas afirmou não compartilhar desse pânico. ‘Eu, pessoalmente, não acho isso. E eu não experimento nenhum sentimento apocalíptico com relação à inteligência artificial’, declarou.
Ao recuperar a distinção de Umberto Eco entre apocalípticos e integrados, Pondé criticou ambos os extremos. Os primeiros, como o historiador Yuval Harari, temem uma fusão entre IA e biotecnologia capaz de criar uma nova espécie. Pondé disse não partilhar desse receio. Já os integrados acreditam que a tecnologia libertará o ser humano para a criatividade, mas Pondé questionou: ‘Para o que é que a gente existe? Quem disse que a gente vai saber?’.
Produtividade como critério decisivo
O filósofo vinculou a IA ao que chamou de ‘sociedade do cansaço’, conceito de Byung-Chul Han, caracterizada pela busca incessante de desempenho, resultado e eficiência. Para Pondé, o critério decisivo para a adoção da inteligência artificial não será a promessa de felicidade, mas sua capacidade de gerar produtividade e riqueza. Se a tecnologia entregar valor econômico, será incorporada; caso contrário, ‘vai virar coisa de brinquedo, tipo game’, afirmou.
Essa lógica, segundo ele, relativiza a ideia de que a IA proporcionará mais tempo livre. O ganho de eficiência pode ser capturado pelas empresas e se converter em risco de perda de emprego. ‘Porque, do ponto de vista do nosso sistema econômico, social e político, só fica de pé o que rende dinheiro’, resumiu Pondé.
Controle e tempo livre
A discussão sobre controle também foi central. Pondé lembrou que o medo de perder o controle sobre a técnica é antigo, mas ele mesmo não vê motivos para pânico. No entanto, alertou que a felicidade humana não é uma variável que a IA possa otimizar. O desejo e a insatisfação são constituintes da condição humana, e a tecnologia não oferece respostas para essas questões fundamentais.
O AI Summit EXAME, promovido em parceria com a Saint Paul, reuniu especialistas em mais de oito horas de conteúdo sobre IA aplicada aos negócios, conectando tecnologia, estratégia e gestão. A palestra de Pondé encerrou o evento com uma reflexão que evitou simplificações, apontando que a inteligência artificial deve ser analisada com sobriedade, sem promessas fáceis de felicidade ou catástrofes iminentes.





