O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) abandonou, neste domingo, 9 de agosto, o plano de interromper temporariamente a geração de energia no Dia dos Pais. O órgão havia colocado as distribuidoras em alerta para um possível corte, mas o chamado curtailment acabou não sendo executado. A mudança veio depois que a operação do sistema conseguiu, em tempo real, restabelecer o equilíbrio entre o que era produzido e o que era consumido.

O contexto reúne elementos que têm se repetido em fins de semana ensolarados no país: painéis solares instalados em telhados operando perto do máximo e consumo reduzido por causa da baixa atividade industrial e comercial. A confiabilidade do abastecimento, nesse quadro, é também um ponto crítico para a economia brasileira, uma vez que sustenta a previsibilidade de operação de fábricas, lojas e serviços públicos.

O papel do curtailment na rede elétrica

O curtailment age como uma válvula de segurança em momentos em que a produção de energia é maior do que a demanda e a rede não consegue absorver o excedente. Sem controle, esse excesso pode elevar a sobrecarga dos equipamentos e levar a um apagão.

A hierarquia de atuação do ONS começa pelas usinas que ele comanda diretamente, em especial as grandes hidrelétricas vinculadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Se ainda assim for necessário, o corte é ampliado para pequenos empreendimentos que não estão sob sua gestão, como pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), usinas movidas a biomassa e unidades eólicas e solares de menor escala.

Por que o Dia dos Pais ampliou o alerta

Dois movimentos opostos sobrecarregaram o planejamento da operação elétrica no domingo. Enquanto os telhados com placas fotovoltaicas produziram energia de forma intensa, o consumo encolheu por causa do fim de semana, quando fábricas e centros comerciais reduzem a atividade.

Feriados e datas comemorativas reforçam esse desequilíbrio porque as famílias costumam passar o dia reunidas em casa, muitas vezes sob forte irradiação solar. Nesse ambiente, a contribuição da micro e minigeração distribuída atinge patamares elevados e a demanda líquida se aproxima de um nível crítico, o que obriga o operador a usar todos os instrumentos disponíveis para preservar a estabilidade do sistema.

O precedente do Dia dos Pais anterior

O temor de um corte não é apenas teórico. Na versão mais recente da data, o sistema enfrentou um episódio de estresse nas primeiras horas da tarde, no momento de pico da produção fotovoltaica. Nesse cenário, as unidades distribuídas responderam por 37,6% de todo o consumo verificado naquele instante.

Para evitar o colapso, o ONS diminuiu a operação das hidrelétricas e das termelétricas e suspendeu 98,5% do potencial previsto para os parques eólicos e as usinas solares centralizadas naquela faixa de horário. Com isso, a margem de manobra caiu para 2 gigawatts (GW), algo em torno de 5% de tudo o que ainda podia ser controlado pelo operador.

Situações como essa expõem o limite das ferramentas convencionais. Caso essa folga residual tivesse sido consumida, o ONS teria de operar usinas abaixo dos níveis mínimos de segurança ou ignorar restrições técnicas das linhas de transmissão, o que colocaria em risco a integridade da rede.

Por que a medida foi revertida

O ONS informou que o plano de interrupção já tinha sido comunicado aos envolvidos antes da decisão de não executá-lo. A reversão aconteceu porque o gerenciamento feito em tempo real conseguiu promover o ajuste fino entre oferta e demanda sem afetar os pequenos geradores.

O órgão também deixou claro que seguirá monitorando o comportamento da carga ao longo do domingo e administrando os recursos disponíveis conforme a necessidade do momento. A suspensão do alerta, portanto, não significa ausência de risco, mas sim que a operação encontrou uma solução de equilíbrio dentro da margem técnica existente.