
O anúncio do contrato de dez anos entre Stephen Curry e a chinesa Li-Ning, avaliado em US$ 400 milhões, transcendeu a simples troca de patrocinador. O movimento expõe a consolidação de um ecossistema de marcas asiáticas com décadas de engenharia, produto próprio e presença competitiva real, que o mercado ocidental demorou a dimensionar. O negócio reacende o debate sobre o reposicionamento de players como Asics, Mizuno e Descente no cenário global do esportivo de alta performance.
Li-Ning e o salto estratégico
Fundada em 1990 pelo ginasta olímpico Li Ning, a empresa faturou US$ 4,3 bilhões em 2025, segundo dados divulgados pela companhia. A cifra reflete uma trajetória de investimento contínuo em tecnologia de calçados, como a espuma BOOM desenvolvida internamente e aplicada em modelos como o tênis de basquete com cabedal em malha knit. O acordo com Curry, antes sob contrato com a Under Armour por mais de 13 anos, sinaliza uma mudança de paradigma: a marca chinesa não apenas atraiu um dos maiores nomes da NBA, mas também demonstrou capacidade de competir em termos de inovação e escala.
Para além do valor do contrato, a Li-Ning representa um modelo de negócio verticalizado, com controle sobre design, manufatura e distribuição. A estratégia contrasta com a abordagem de licenciamento de outras concorrentes e reforça a tese de que o mercado asiático de artigos esportivos deixou de ser secundário para assumir protagonismo. A marca, que já patrocina seleções e atletas em diversas modalidades, agora busca consolidar sua presença no basquete, um dos segmentos mais disputados do setor.
Asics: engenharia japonesa em expansão
A Asics, sediada em Kobe desde 1949, encerrou o ano fiscal de 2025 com receita de ¥810,9 bilhões, o quarto resultado recorde consecutivo. A linha METASPEED exemplifica a abordagem técnica da empresa: os calçados de corrida são projetados com base no padrão de passada do atleta, dividindo-se entre modelos que aumentam o comprimento da passada e os que otimizam a cadência. O METASPEED RAY, por exemplo, pesa apenas 129 gramas, um número que reflete decisões de engenharia voltadas exclusivamente para a competição, não para o consumo em massa.
A submarca Onitsuka Tiger, focada em lifestyle e moda, percorreu trajetória distinta com faturamento de ¥95,4 bilhões em 2024, crescimento de 58,3% sobre o ano anterior. Em julho de 2025, a empresa inaugurou uma loja de 1.500 metros quadrados nos Campos Elíseos, em Paris, além de flagships em Milão, Londres e Barcelona. O Asics Institute of Sport Science, no Japão, segue como centro de pesquisa que alimenta tanto a linha de competição quanto a operação de lifestyle, evidenciando a sinergia entre performance e moda.
No mercado de corrida, a Asics cresceu 50% em visibilidade na Europa em fevereiro de 2025, segundo dados da Heuritech, impulsionada pelo lançamento de produtos como o METASPEED Edge e Sky. A marca mantém posição de destaque entre corredores amadores e profissionais, mas enfrenta a pressão de concorrentes asiáticos e ocidentais que também investem em tecnologia de placas de carbono e espumas reativas.
Mizuno: da tradição ao carbono
A Mizuno, fundada em Osaka em 1906, atua em onze modalidades esportivas, incluindo beisebol, golfe, vôlei, futebol, corrida, ciclismo, natação e tênis de mesa. No ano fiscal encerrado em março de 2025, o segmento de vestuário gerou 68,4 bilhões de ienes, alta de 7,6% em relação ao exercício anterior. A marca, historicamente associada à consistência e tradição, saltou tecnicamente em 2023 com o lançamento do Rebellion Pro, seu primeiro tênis de competição equipado com placa de carbono.
O impacto do novo produto foi imediato: em fevereiro de 2025, a visibilidade da Mizuno na Europa cresceu 75% na comparação anual, tornando-a a marca de tênis esportivo de crescimento mais rápido em mídia social no período, segundo a Heuritech. O crescimento reflete a aceitação do Rebellion Pro entre corredores de elite e a capacidade da Mizuno de transformar décadas de pesquisa em produto competitivo. A empresa, no entanto, precisa equilibrar a herança de marca com a inovação para não perder espaço em um mercado dominado por Nike e Adidas.
A presença no vôlei e no judô, modalidades com forte apelo no Japão e na Ásia, oferece à Mizuno uma base sólida de receita, mas o crescimento na corrida de rua e no outdoor indica uma estratégia de expansão global. A marca investe em patrocínios de atletas e eventos europeus, buscando replicar o sucesso do Rebellion Pro em outras categorias.
Descente e a manufatura premium
A Descente, fundada em 1935, construiu reputação em esqui, golfe, triatlo e outerwear. A linha ALLTERRAIN aplica tecnologia de performance em peças urbanas, com destaque para o Mizusawa Down, fabricado à mão na fábrica própria da marca no Japão. O produto utiliza costura selada e impermeabilização para uso em condições adversas, posicionando-se na interseção entre esportivo técnico e vestuário urbano premium.
A empresa mantém operações próprias de manufatura, o que garante controle sobre a qualidade e a inovação dos materiais. A fábrica de Mizusawa é um diferencial competitivo em um setor onde a terceirização é regra. A Descente, embora menor que Asics e Mizuno, ocupa nichos de alto valor agregado, com produtos que competem diretamente com marcas como Arc’teryx e Patagonia no segmento de outerwear técnico.
A estratégia de manter a produção artesanal no Japão, enquanto outras marcas asiáticas escalam a produção na China e no Sudeste Asiático, permite à Descente capturar consumidores dispostos a pagar prêmio por qualidade e origem. A linha ALLTERRAIN, em particular, tem ganhado tração entre executivos e profissionais que buscam vestuário funcional para o dia a dia, ampliando o mercado endereçável da marca.
O avanço das marcas asiáticas no esportivo global não é um movimento recente, mas o acordo Curry-Li-Ning funcionou como um catalisador de atenção. Com receitas recordes, investimento contínuo em tecnologia e presença em competições de alto nível, Asics, Mizuno, Descente e Li-Ning demonstram que o equilíbrio de forças no setor está se deslocando para o Leste. Para investidores e analistas, o fenômeno representa uma mudança estrutural no mercado de artigos esportivos, com implicações que vão além do patrocínio de atletas, conforme cobertura do SpaceMoney Esportes.





