Um ano depois da onda de intoxicações por metanol ligada a bebidas adulteradas em São Paulo, as investigações apontam os principais integrantes da cadeia de falsificação, mas as mortes não pararam e sobreviventes seguem convivendo com sequelas permanentes. No mesmo período, a CPI do Metanol, da Câmara Municipal de São Paulo, passou a defender que a adulteração de bebidas alcoólicas com agentes tóxicos seja tratada como crime hediondo.
Os dados de saúde mostram que o problema está longe de ser resolvido. Em 2025, o Ministério da Saúde confirmou 73 casos de intoxicação por metanol vinculados a bebidas adulteradas, com 25 óbitos. Neste ano, até meados de agosto, eram 17 casos confirmados e outros 23 em investigação, além de sete mortes confirmadas por secretarias estaduais de Saúde. Na capital paulista, a Secretaria de Estado da Saúde havia registrado 54 casos confirmados e doze mortes até novembro do ano passado.
Vítimas enfrentam sequelas permanentes
A designer de interiores Radharani Domingos está entre os primeiros casos da crise. Ela consumiu três caipirinhas em um bar da Zona Oeste da capital, entrou em coma no dia seguinte e perdeu a visão. Um ano depois, diz que a capacidade visual ficou reduzida a cerca de 3%, o suficiente apenas para perceber vultos e movimentos acima da linha do nariz.
O ex-garçom Cláudio Crespi também perdeu a visão, depois de beber vodca em um bar de Guarulhos que, segundo a polícia, comprava bebidas de Gilmar Silva, apontado como fornecedor do esquema. Ele passou nove dias em coma e hoje refaz etapas básicas do cotidiano, como ler, andar e falar.
Novos casos foram registrados em 2026
Em julho, Ana Caroline morreu após ingerir bebida contaminada em São Félix do Araguaia (MT). A família tratou os sintomas iniciais como ressaca, e a suspeita de intoxicação por metanol surgiu quando ela começou a relatar dificuldades para enxergar. A vítima tinha 31 anos, era mãe de quatro filhos e havia ingressado havia pouco em uma faculdade de pedagogia. Transferida em UTI móvel para uma unidade com mais recursos, sofreu uma parada cardiorrespiratória no trajeto e não resistiu.
Rastro da falsificação sob apuração
Em São Paulo, ao menos seis inquéritos abertos em delegacias distintas passaram a ser analisados em conjunto. As apurações começaram pelas mortes de Ricardo e Marcos, ocorridas depois de eles consumirem vodca em um bar da Mooca. A primeira prisão, em flagrante, foi a de Vanessa Maria da Silva, que falsificava bebidas na garagem da própria casa com material clandestino; ela permanece presa. A reportagem do Fantástico reconstituiu essa cadeia e reencontrou sobreviventes um ano depois.
A partir desse caso, os investigadores chegaram a Pedro Lagar, que negociava garrafas descartadas depois reaproveitadas na falsificação, e a Gilmar Silva, descrito como fornecedor de bebidas para bares e outros estabelecimentos. Segundo a delegada Isa Lea, parentes e pessoas do círculo próximo dos suspeitos atuavam juntos na rede. A origem do metanol usado nas adulterações ainda é objeto de apuração.
Registros bancários foram utilizados pelos investigadores para localizar a adega responsável pela bebida contaminada que matou Rafael Martins, após ele ingerir gim com metanol. Os mesmos dados apontaram repasses por Pix entre Gilmar Silva e o Bar Ministrão, nos Jardins, onde Radharani bebeu antes de ser internada. A direção do estabelecimento informou que aguardará a conclusão das investigações. Gilmar Silva, Pedro Lagar e Fagne da Silva Santos, dono do bar, devem ser indiciados nos próximos dias.
CPI quer pena de crime hediondo
Instalada em outubro do ano passado na Câmara Municipal de São Paulo, a CPI do Metanol concluiu que as intoxicações não tiveram origem na indústria formal, mas em um esquema clandestino de produção falsificada e distribuição. O relatório final propõe incluir no rol dos crimes hediondos a adulteração de bebidas alcoólicas com metanol e outras substâncias tóxicas, além de responsabilizar lojas, adegas e distribuidores que adquirem mercadoria sem nota fiscal. O documento será encaminhado à Polícia Civil e ao Ministério Público de São Paulo para auxiliar nas apurações.
O vereador Adrilles Jorge (União Brasil), integrante da comissão, sustenta que não basta punir quem envasa o produto falsificado: na avaliação dele, estabelecimentos que compram sem comprovação de origem também precisam responder.
Operações crescem, prisões seguem poucas
A crise escancarou a dimensão do mercado ilegal de bebidas. De acordo com a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), o volume de operações contra a falsificação cresceu quatro vezes depois dos casos de metanol. A recomendação da entidade ao consumidor é checar a procedência da bebida, conferindo lote, documentação e nota fiscal. A presidente-executiva da Abrabe, Cristiane Foja, afirma que os episódios revelaram riscos maiores do que se imaginava.
Os números da associação apontam ainda entraves na responsabilização dos envolvidos. Entre 2015 e 2026, foram registrados 605 procedimentos de investigação e ações sobre o tema, mas apenas 16 pessoas continuam presas. Cristiane avalia que a Justiça não acompanha o ritmo das apurações.
Um ano depois do início da crise, sobreviventes dividem a expectativa entre o andamento dos processos e a busca por tratamentos. Radharani diz manter esperança na medicina, ainda que tenha dúvidas sobre a resposta da Justiça, e cobra que os estabelecimentos respondam pelo que compram e revendem.





