A Argentina de Javier Milei enfrenta uma tormenta simultânea em 2026: inflação em reaceleração, escândalos de corrupção e atividade econômica em queda. O cenário coloca em xeque a narrativa de recuperação que sustentou politicamente o governo libertário desde sua posse em dezembro de 2023.

Inflação volta a acelerar e derruba vitrine do governo

A inflação foi, por meses, o principal trunfo de Milei. O índice caiu de níveis superiores a 25% ao mês no início do mandato para um dígito em meados de 2025. Mas a tendência reverteu. A aceleração recente dos preços forçou o próprio presidente a reconhecer publicamente as dificuldades econômicas, um movimento incomum para um líder que historicamente rejeita qualquer narrativa de fracasso.

A pressão inflacionária tem raízes na flexibilização do controle cambial, no repasse de tarifas de energia e transporte ao consumidor e na fragilidade das reservas do Banco Central. O acordo com o FMI firmado em 2025 impõe metas fiscais rígidas, mas não elimina os desequilíbrios estruturais que alimentam a espiral de preços.

Corrupção corrói base política

Além da frente econômica, escândalos de corrupção passaram a minar a credibilidade do governo. Casos envolvendo membros do entorno presidencial ganharam espaço na mídia argentina e alimentam o desgaste junto ao eleitorado que elegeu Milei justamente pela promessa de ruptura com a classe política tradicional.

A contradição é politicamente custosa. Um governo fundado no discurso anticorrupção e anti-establishment vê-se confrontado com denúncias que replicam o padrão que prometeu exterminar. O impacto nas pesquisas de aprovação já é perceptível.

Atividade econômica recua e aperta o bolso

O PIB argentino, que mostrou sinais de recuperação no segundo semestre de 2025 após a contração inicial do ajuste fiscal, volta a dar sinais de enfraquecimento. Setores como construção e indústria registram queda na atividade. O consumo das famílias permanece pressionado pela perda de poder aquisitivo acumulada nos últimos dois anos.

Para analistas de macroeconomia, o diagnóstico é claro: o ajuste fiscal draconiano de Milei produziu superávit primário, mas não resolveu a raiz dos desequilíbrios. A sustentabilidade do modelo depende de um fluxo de dólares que o país ainda não consegue garantir de forma estrutural.

Eleições de meio de mandato no horizonte

Com eleições legislativas previstas para outubro de 2026, o governo Milei entra em terreno eleitoral com um tripé de vulnerabilidades: inflação em alta, suspeitas de corrupção e economia em desaceleração. A capacidade de La Libertad Avanza de manter sua bancada no Congresso depende diretamente de reverter pelo menos um desses vetores negativos nos próximos meses.

O teste político mais imediato de Milei é convencer um eleitorado exigente de que os sacrifícios do ajuste ainda valerão a pena — em um contexto em que os resultados prometidos ainda não chegaram de forma tangível à maioria da população argentina.